Aikidô funciona?

Parte 1:

A pergunta errada

"Aikidô não funciona, é só dança." A crítica é comum, e tem uma parte verdadeira. O problema é que ela responde a uma pergunta que o aikidô nunca se propôs a fazer.

Vamos começar pela parte incômoda, porque fingir que ela não existe seria desonesto e não convenceria ninguém. Existe uma crítica recorrente ao aikidô dentro do mundo das artes marciais: a de que ele não funciona. Que é bonito, coreografado, mas que desmorona no instante em que alguém resiste de verdade. Em 2017, o lituano Rokas Leonavicius, na época instrutor de aikidô com treze anos de prática, decidiu testar exatamente isso. Entrou num gym de MMA, enfrentou um lutador que não colaborava, e nenhuma das suas técnicas funcionou. Ele filmou, publicou e foi honesto sobre o que viu. O vídeo correu o mundo, e Rokas acabou deixando o aikidô e migrando para o jiu-jitsu. E isso muda o peso do testemunho: não era um crítico de fora, era alguém que tinha dado treze anos da vida à arte e queria que ela funcionasse.

E aqui vai a primeira coisa que quase nunca se diz num texto que defende o aikidô: naquele teste específico, ele tinha razão. Contra um oponente treinado, resistindo, num confronto de regras esportivas, o aikidô não se sai bem. Negar isso seria cair no mesmo tipo de ilusão que a crítica acusa.

Mas repare no que estava sendo medido.

Um ringue de MMA mede uma coisa muito específica: dois atletas treinados, com regras combinadas, num espaço fechado, cada um tentando impor a própria vontade sobre o outro até que haja um vencedor. É uma pergunta legítima e dura de responder. Mas é a pergunta do gladiador. E o aikidô, desde a origem, se recusou a respondê-la.

Morihei Ueshiba, que criou o aikidô na primeira metade do século XX depois de dominar várias artes marciais de combate, dizia que o verdadeiro budô não conhece derrota, porque nunca luta. Não era misticismo vazio. Era uma escolha de propósito. Ele já sabia vencer combates. O que passou a ensinar foi outra coisa: como neutralizar a agressão sem destruir o agressor, como dissolver o conflito antes que ele precise de um lado derrotado. O objetivo declarado do aikidô não é vencer o outro. É tornar a vitória sobre o outro desnecessária. Dito de forma mais crua: o objetivo nunca foi provar quem é o mais forte da sala, foi sair dela inteiro, e deixar o outro sair também.

"O importante não é lutar contra um inimigo e derrotá-lo. É mais do que isso. É derrotar os inimigos internos, a insegurança, o receio. É descobrir a maneira de conciliar as diferenças que existem no mundo..."
— Morihei Ueshiba

Isso muda tudo na hora de avaliar se a arte funciona. Julgar o aikidô pela régua do MMA é como cronometrar um nadador na bicicleta e concluir que ele é um atleta fraco. O atleta pode ser excelente, a prova é que está errada. Quando alguém pergunta "aikidô funciona?", a única resposta honesta é devolver a pergunta: funciona pra quê? Pra vencer uma luta agendada, contra um oponente do mesmo peso e regras combinadas? Não, e tudo bem. Esse nunca foi o exame.

E a acusação de que "é só dança"? Ela nasce de um mal-entendido sobre o método, mas aponta pra um risco que existe de verdade. O aikidô se treina em cooperação: quem ataca, o uke, entrega a energia de propósito, pra que quem aplica, o tori, aprenda a forma do movimento sem machucar ninguém. Visto de fora, isso parece coreografia. Não é fraqueza, é pedagogia, do mesmo jeito que um pianista pratica devagar antes de tocar no tempo real. O risco verdadeiro, e o instrutor do vídeo de 2017 acertou nesse ponto, aparece quando a cooperação vira um fim em si mesma: quando o dojo nunca testa nada, passa a acreditar nas próprias ilusões e se esconde atrás do "é perigoso demais pra mostrar". Isso é um problema de honestidade, não da arte. E a resposta honesta não é jurar que o aikidô é secretamente mortal. É admitir que estamos treinando outra coisa, e ter clareza sobre qual coisa é essa.

Que coisa é essa, então? Se não é vencer lutas, o que exatamente se treina no tatame, e por que gente que lida com pressão de verdade, de executivos a fuzileiros navais, leva isso a sério? É o que a Parte 2 responde.

Antes disso, fica a pergunta que abre esta parte: quantas coisas na sua vida você já classificou como fracasso quando, no fundo, só estava usando a régua errada?

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