A raiz marcial do Aikido (e os charlatães que a falta de competição atrai)
Não, isso não é Aikido.
Toda vez que o assunto é Aikido, cedo ou tarde aparece a mesma frase: "isso não funciona, nem devia se chamar arte marcial". O argumento costuma ser um só. O Aikido não tem competição, ninguém sobe num ringue pra provar nada, então seria uma dança combinada entre parceiros que colaboram.
Vou começar concordando com uma parte. É verdade que o Aikido, na linha do fundador, não tem torneio. A única exceção conhecida é o Aikido Tomiki, também chamado Shodokan, criado por Kenji Tomiki, que montou um formato com regras de competição. Quando morei em Melbourne, Australia, eu treinei esse estilo de Aikido por um tempo, sob a tutela da Sensei Hanifa Macfarlane, 8º Dan Japan Aikido Association. De qualquer maneira, fora ele, a regra vale: a gente não testa a arte num campeonato, com um adversário tentando te derrotar a qualquer custo. Isso é fato, e fingir o contrário seria desonesto.
O problema é que quem para nessa frase nunca faz a pergunta seguinte: de onde o Aikido veio?
O jovem Morihei Ueshiba aos 37 anos, período em que se dedicava intensamente ao estudo do Daito-ryu Aikijujutsu sob a tutela do lendário mestre Sokaku Takeda. Anos mais tarde, essa base técnica e sua profunda busca espiritual dariam origem ao Aikido.
📸 Imagem aprimorada por IA por EugeneFrolov
A origem que derruba a acusação
O Aikido não surgiu como uma filosofia de paz sem lastro. Ele nasceu de um sistema de combate.
Em março de 1915, num alojamento em Engaru, no norte do Japão, Morihei Ueshiba, ainda jovem, conheceu Sokaku Takeda, o mestre do Daito-ryu Aiki-jujutsu. E aqui vale explicar o termo, porque é ele que carrega o argumento inteiro. Jujutsu é uma arte de combate corpo a corpo, feita de projeções, torções de articulação, imobilizações e golpes, da mesma família das artes de agarrar que o brasileiro conhece pelo jiu-jitsu. Nada de suave. O Daito-ryu, nas palavras de um de seus próprios mestres, é "inteiramente marcial em caráter", pensado pra encerrar um confronto rápido e supondo ataques vindos de todos os lados, não um duelo combinado.
E não é lenda romântica. Sokaku Takeda, um homem pequeno e magro, foi o maior nome das artes marciais japonesas do começo do século 20. Derrotava quem aparecesse, lutadores de sumô, faixas-pretas de judô, karatê e kendô, e seguiu fazendo isso já com mais de oitenta anos.
Ueshiba levou aquilo a sério. Treinou sob Takeda de 1915 a 1922, quando recebeu dele o kyoju dairi, a licença pra ensinar o sistema. O que ele passou a ensinar nas décadas seguintes saiu daí. E isso não sou eu inventando: Stanley Pranin, o pesquisador que dedicou a vida à história do Aikido, e Katsuyuki Kondo, detentor do Menkyo Kaiden, a mais alta licença do Daito-ryu, registram a mesma coisa. As técnicas básicas do Aikido vêm do sistema Daito-ryu de Takeda.
Pra você sentir o quanto esse combate era levado a sério: contam que Takeda nunca ensinava a mesma técnica duas vezes. O motivo, nas palavras do próprio Kondo, era prático. Se você ensina a mesma técnica duas vezes, na segunda o aluno descobre como revertê-la e te derrotar com ela. Uma arte que se guardava assim não é dança.
Ou seja, o corpo técnico do Aikido é o de uma arte de combate. A raiz é marcial. Isso é história documentada, com nome e fonte.
Fotografia retocada de Sokaku Takeda por volta de 1888.
O que Ueshiba mudou
Se a técnica veio pronta e era combativa, o que faz o Aikido parecer tão diferente?
Ueshiba trocou o objetivo, não o corpo técnico. E a virada tem data e tem causa. A partir de 1919 ele se aproximou da Oomoto-kyo, uma corrente espiritual japonesa liderada por Onisaburo Deguchi, e mudou de vez o que buscava na arte. Deixou de treinar pra derrotar o outro e passou a treinar pra neutralizar o ataque sem destruir quem ataca. Adotou e simplificou as técnicas do Daito-ryu e somou essa dimensão espiritual. O nome "Aikido" só apareceu em 1942. Antes disso, o que ele ensinava ainda carregava, entre outros nomes, o de Daito-ryu Aiki-jujutsu.
É por isso que o Aikido abre mão da competição, e essa escolha é coerente. Uma arte construída em torno de não destruir o outro não combina com um formato cujo objetivo é justamente o oposto. Ueshiba manteve a técnica que machuca e escolheu usá-la pra não machucar. Feito de verdade, isso exige mais controle, não menos.
O sensei Morihei Ueshiba demonstrando técnicas no Dojo Kobukan na década de 1930.
O buraco que a falta de competição abre
Agora a parte que me incomoda, e que quase ninguém no meio gosta de admitir.
Quando você tira a competição, tira junto um filtro. No ringue, uma alegação falsa cai na primeira vez que alguém resiste de verdade. Sem uma fórmula para se testar, dá pra afirmar quase qualquer coisa e nunca ser desmentido. Seja nas artes marciais, na política, na religião, ou qualquer outra área. E é nesse vácuo que o charlatão se instala.
Dentro do Aikido, existem dois tipos de charlatões que eu não suporto.
O primeiro se esconde atrás da própria arte. Diz que a técnica é perigosa demais pra ser aplicada com resistência, letal demais pra treinar de verdade, e por isso nunca aplica. É uma desculpa perfeita: nunca precisa provar nada, porque provar seria "perigoso".
O segundo transforma o Aikido em mágica. Trata o ki, a tal "energia vital", como se fosse a Força, e ele fosse Obi-Wan Kenobi. Esse suposto Jedi projeta gente com um gesto, enquanto todo mundo cai sozinho, de boa vontade. Isso é puro circo. E esse truque, contra alguém que não colabora, simplesmente não acontece: o sujeito continua ali, de pé, olhando pra ele, tentando entender o que diabos essa pessoa esta tentando fazer.
Os dois envergonham quem leva a arte a sério, porque entregam a munição pra crítica lá do começo. Quando alguém diz que Aikido é balela, muitas vezes está olhando pra um desses, não pra um treino honesto.
E que fique claro: não estou dizendo que o Aikido deveria ter competição. Abrir mão do torneio foi uma escolha coerente com o que a arte busca, e é a escolha que eu sigo no meu dojo. O preço é que, sem o ringue pra filtrar, o filtro passa a ser você. Então fica o aviso pra quem está chegando agora ou olhando de fora: desconfie do mestre que sempre tem um motivo pra não aplicar a técnica de verdade, e do guru que promete super-poderes. Só não julgue a arte inteira por eles.
Não, isso também não é Aikido.
Como reconhecer o Aikido honesto
Não é difícil, mas exige entender uma coisa sobre como se treina.
Ninguém treina usando 100% da força, e isso tem dois motivos simples: didática e segurança. Se cada golpe fosse aplicado no talo, ninguém aprenderia nada e todo mundo se machucaria no primeiro mês. Então o parceiro oferece o ataque e cai quando a técnica de fato o leva a cair. Mas oferecer não é fingir. Mesmo cedendo, ele mantém certa resistência dentro do exercício. E conforme os dois evoluem, a intensidade sobe: a resistência aumenta, e a técnica passa a precisar funcionar contra alguém que dificulta cada vez mais.
A diferença entre isso e o "Jedi” é simples. No Aikido honesto, o parceiro cai porque foi levado a cair, não porque combinou de voar. O professor íntegro mostra a técnica funcionando sob pressão, não só na demonstração bonita. Mas é claro que ninguém promete invencibilidade nem super-poderes. E existe humildade sobre o que a arte é e o que ela não é.
O Aikido não precisa de competição pra ser real. A raiz dele é combate. O que ele precisa, isso sim, é de gente honesta praticando e ensinando de verdade.
E deixo aqui uma pergunta, que vale pra muito além do tatame: onde mais, na sua vida, você já viu alguém se esconder atrás de um "é bom demais pra ser testado"?
Nota: este texto é informativo. As datas e a linhagem histórica estão nas fontes abaixo. A crítica aos charlatães é a minha leitura, de quem ensina a arte, e mira em comportamentos, não em nenhuma escola específica.
Referências
Katsuyuki Kondo (Menkyo Kaiden), Daito-ryu Aikijujutsu: Hiden Mokuroku Ikkajo, com introdução histórica de Stanley A. Pranin, tradução para o Inglês de Derek Steel e Hisako Ishida. Aiki News, Tóquio, 2000. (Linhagem do Daito-ryu; Ueshiba como aluno de Takeda; caráter combativo da arte; a anedota de Takeda nunca ensinar a mesma técnica duas vezes, no prefácio de Kondo.)
Shiro Omiya, The Hidden Roots of Aikido: Aiki Jujutsu Daitoryu. Kodansha International. (O Daito-ryu "inteiramente marcial em caráter"; Sokaku Takeda derrotando lutadores de sumô, judô, karatê e kendô; Ueshiba adotando e simplificando as técnicas do Daito-ryu para criar o Aikido.)
Morihei Ueshiba, verbete da Wikipédia (encontro com Takeda em 1915, kyoju dairi em 1922, aproximação da Omoto-kyo a partir de 1919, adoção do nome "aikido" em 1942). https://en.wikipedia.org/wiki/Morihei_Ueshiba
Aikido Tomiki / Shodokan, o estilo com competição, criado por Kenji Tomiki. https://www.tomikiaikido.ie/Aikikai-Aikido-Dublin-Tomiki-Aikido-Ireland
Morihei Ueshiba, The art of Peace (organização e tradução de John Stevens), para a filosofia da não-destruição.