O espaço que a arte marcial devolve à mulher

Mulheres e artes marciais, parte 1

Quem está acompanhando a nova temporada de Ted Lasso viu o técnico mais otimista da televisão assumir um time de futebol feminino. O que me prende na série, confesso, é menos o futebol e mais a psicologia por trás de tudo. O esporte é apenas o palco, mas o verdadeiro espetáculo são as relações humanas e a evolução mental dos personagens. O jeito como as jogadoras começam: contidas, pequenas, tratando como normal pedir licença pra ocupar o próprio lugar em campo. Ao longo da temporada, com tropeço e sem pressa, elas vão tomando esse espaço de volta. E eu fiquei com a sensação de já ter visto aquilo muitas vezes, porque vi mesmo, no tatame, quase toda vez que entra uma aluna nova no dojo, como a gente chama o espaço de treino.

A cena é sempre parecida. A aluna chega, cumprimenta, e o corpo dela conta a história antes de qualquer palavra. O braço fica colado ao tronco, o passo é curto, e na hora de empurrar ela usa metade do corpo e segura o resto, como quem pede desculpa por estar usando. Quando o exercício pede o centro do tatame, ela procura a beirada. Com os homens que chegam, o mais comum é o contrário: entram abrindo o braço, às vezes ocupando mais espaço do que precisam, e o meu trabalho com eles costuma ser ensinar a conter. Com elas, quase sempre, o trabalho é soltar.

Daria pra chamar isso de timidez de iniciante. Só que timidez costuma passar em duas ou três aulas, e esse jeito de se mover demora muito mais pra ir embora. Ele tem raiz, e a raiz é mais antiga e mais concreta do que parece.

Ted Lasso iniciou um novo capítulo sem abandonar seus temas centrais. Agora, Ted assume o desafio de treinar as Lady Greyhounds, o time feminino de futebol da segunda divisão do AFC Richmond. A quarta temporada de Ted Lasso está disponível no Apple TV+.

Quando ocupar espaço era proibido

Em 27 de dezembro de 1920, o Dick, Kerr Ladies, um time formado por operárias de uma fábrica de Preston, na Inglaterra, entrou em campo no Goodison Park, em Liverpool, num jogo beneficente para ex-soldados da Primeira Guerra. Cinquenta e três mil pessoas lotaram o estádio, e outras catorze mil ficaram do lado de fora sem conseguir entrar, um recorde de público para um jogo de clube feminino que só seria batido 99 anos depois. A resposta veio menos de um ano mais tarde. Em dezembro de 1921, a Federação Inglesa de Futebol proibiu as mulheres de jogar nos campos dos clubes filiados, e a proibição durou cinquenta anos.

Dick, Kerr Ladies F.C, o inovador clube de futebol feminino, posam para uma fotografia durante sua turnê norte-americana de 1922. (Fotógrafo: Walter Gircke Propriedade vintage da ullstein bild)

Se isso parece coisa distante, inglesa e de outro século, o Brasil fez parecido, e chegou bem mais perto do tatame do que muita gente imagina. Em 1941, o Decreto-Lei 3.199 determinou que às mulheres "não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza". O texto não dizia quais esportes eram esses, e em 1965 o Conselho Nacional de Desportos resolveu deixar claro. A lista abria assim: "não é permitida a prática de lutas de qualquer natureza". Depois vinham o futebol, o futsal, o rugby, o halterofilismo e outros. Ou seja, até a regra ser revogada, em 1979, uma mulher brasileira não podia, por lei, treinar arte marcial nenhuma.

Jornal no museu do futebol em SP — O Globo

A lei caiu há mais de quarenta anos, e mesmo assim a aluna de vinte e poucos anos, que nunca viveu sob ela, chega ao tatame se movendo como se ainda valesse. Isso diz alguma coisa sobre onde esse tipo de regra realmente mora. E quem explicou isso melhor foi uma filósofa, ainda em 1980.

O que o corpo aprende antes da cabeça

Naquele ano, a americana Iris Marion Young publicou um ensaio com um título provocador, Throwing Like a Girl, "jogar como uma menina". Ela partiu de uma observação feita nos anos 1960 pelo psiquiatra Erwin Straus, que tinha reparado na diferença entre meninos e meninas arremessando uma bola. O menino gira o tronco, joga o peso pra frente e estica o braço inteiro, enquanto a menina tende a ficar com os pés juntos, sem girar o corpo, usando só o braço. Straus atribuiu isso a uma "atitude feminina" de nascença.

Young discordou e foi procurar a causa na situação em que as meninas crescem, ouvindo desde cedo que devem tomar cuidado, sentar de perna fechada, não se machucar, não ocupar demais. O resultado, segundo ela, é uma mulher que tende a não colocar o corpo inteiro numa tarefa física, que subestima a força que tem e que se move como se houvesse um limite invisível ao seu redor, que ela não pode atravessar. Uma mulher que vive o próprio corpo, em boa parte, como algo que é olhado, e não só como algo que age. Young teve o cuidado de dizer que não falava de toda mulher, e sim de um padrão que a sociedade produz, mas esse padrão eu reconheço no tatame toda semana.

Neste anúncio de fidelização de clientes, a Always pergunta: "Quando foi que fazer algo 'como uma garota' se tornou um insulto?"

Em 2014, uma campanha de absorventes levou essa ideia pra tela de um jeito difícil de esquecer. No comercial #LikeAGirl, da marca Always, dirigido pela documentarista Lauren Greenfield, a equipe pediu a adolescentes, mulheres adultas e alguns meninos que corressem, arremessassem e lutassem "como uma menina". Todos fizeram a mesma caricatura, com braço mole, passo desajeitado e soco sem força nenhuma. Depois o mesmo pedido foi feito a meninas pequenas, e elas correram com tudo, chutaram com tudo e socaram com tudo. Perguntada sobre o que significava correr como uma menina, uma delas respondeu sem pensar: correr o mais rápido que der. É publicidade, claro, mas mostra em menos de três minutos o que Young levou um ensaio inteiro pra descrever, e não deixa de ser curioso que lutar estivesse na lista.

O que mais me marca, no ensaio e no comercial, é a ordem dos acontecimentos. O corpo aprende a ser pequeno antes de a pessoa ter idade pra discordar, e quando ela finalmente tem, o hábito já está no músculo. É por isso que a lei pode cair e o jeito de se mover continuar. E é por isso também que conversa nenhuma resolve sozinha: se o hábito foi instalado no corpo, é no corpo que ele precisa ser desfeito.

Onde o hábito começa a ceder

É aqui que a arte marcial entra, por um motivo muito prático: não dá pra fazer uma técnica se fazendo pequena. Pra projetar alguém, você precisa firmar os dois pés, baixar o centro, girar o quadril e estender o braço até o fim. Pra receber um ataque, precisa ficar no lugar em vez de recuar. E pra cair sem se machucar, precisa se entregar ao chão com o corpo inteiro, porque a queda feita pela metade é justamente a que dói. Tudo o que o treino pede é aquilo que a menina aprendeu a não fazer, e como o tatame não negocia com o hábito, o hábito começa a ceder.

Esse processo não é rápido nem confortável, e a pesquisadora Maya Maor o descreveu por dentro melhor do que ninguém. Ela treinou jiu-jitsu brasileiro de quatro a sete vezes por semana durante cinco anos, entrevistou mais de sessenta praticantes em Israel e nos Estados Unidos e publicou o resultado em 2018 na revista acadêmica Martial Arts Studies. Logo no começo, ela conta, aprender uma arte marcial adulta lembra uma segunda infância, porque você perde a capacidade de fazer movimentos básicos, se frustra e precisa reaprender a se mover dentro de um sistema novo. Só que, diferente do bebê, o adulto aprende se olhando de fora, julgando o corpo que "não consegue". É o mesmo olhar de fora que Young descrevia, agora apontado pra própria aprendizagem.

O estudo da pesquisadora Maya Maor, publicado pelo jornal Martial Arts Studies.

Em paralelo, segundo Maor, acontece uma coisa mais silenciosa. No treino em dupla, cada técnica é feita pelos dois lados, então ela ataca e é atacada, projeta e é projetada, imobiliza e é imobilizada, exatamente como o parceiro homem. Repetido centenas de vezes, isso desmonta na prática uma das divisões mais antigas que existem, a de que o homem age e a mulher recebe. O corpo entende antes da cabeça que não existe nada que o parceiro possa fazer com ela, por ser homem, que ela não possa fazer com ele.

Com o tempo, a mudança sai do tatame. Maor conta que passou a se esticar mais pra alcançar uma prateleira alta, a sentar em público com as pernas mais abertas, a sentir que o corpo finalmente ocupava o espaço que tinha, e descreve isso como ampliar os contornos do próprio corpo e os limites que ela mesma tinha se imposto sem perceber. Num texto de 2018 para o Aikido Journal, revista internacional dedicada à arte, a editora Christina Kelly, que treinava Aikido havia cerca de um ano, chegou a uma conclusão parecida pela própria experiência, ainda que sem pesquisa por trás: assim como respirar fundo acalma a mente, praticar com o corpo o gesto de avançar e ocupar espaço, com calma, acaba mudando o jeito de se comportar com as pessoas.

E esse caminho não depende de perfil. A francesa Coralie Camilli, professora de filosofia com doutorado sobre violência, contou numa entrevista ao mesmo Aikido Journal, também em 2018, que foi parar no Aikido logo depois de terminar a tese, procurando justamente o que tinha ficado de fora de anos de trabalho intelectual: sentir o corpo e o espaço ao redor dele. No Tenko eu vejo versões dessa mesma virada em quase toda aluna que fica. Depois de alguns meses, ela vai pro centro do tatame sem procurar a beirada, estende o braço até o fim sem que eu precise pedir, e entra pela porta do dojo com outra postura.

O que eu não vou prometer

Eu não seria honesto se parasse por aqui, porque existe uma versão deste texto que promete mais do que a arte marcial entrega.

Treinar não apaga a diferença de força entre um homem grande e uma mulher menor. A própria Maor fazia musculação havia anos antes de começar no jiu-jitsu e estava convencida de que as diferenças físicas entre homens e mulheres eram exageradas. Bastou lutar no chão com homens pra descobrir que um homem de tamanho médio conseguia jogá-la do outro lado do tatame só na força, tão rápido que ela nem entendia o que tinha acontecido. A técnica ajuda muito, e boa parte das artes marciais foi construída justamente pra lidar com quem é maior, mas fingir que tamanho não conta seria vender uma coisa que não existe.

Pela mesma razão, alguns meses de treino regular não transformam ninguém numa especialista em autodefesa. Um dojo de Aikido em Seattle, o Tenzan, sabe disso tão bem que montou à parte um intensivo de autodefesa feminina de sete horas, com instrutores usando proteção acolchoada pra simular ataques reais, porque reagir a uma agressão de verdade pede treino específico, sob estresse. O curioso é o que as participantes contaram depois. A barreira mais difícil, pra elas, foi a inibição que muita mulher carrega de machucar alguém, mesmo pra se defender, e a técnica só veio depois de vencida essa trava.

É a mesma contenção que Young descreveu em 1980, aparecendo justamente na hora em que ela mais atrapalha. E é aí que o treino de todo dia faz a sua parte, menos como garantia de defesa e mais como o lugar onde, aula depois de aula, ocupar espaço vai deixando de ser exceção.

E por que o Aikido

Quase tudo o que eu escrevi vale para qualquer arte marcial séria, do judô ao jiu-jitsu, e se uma mulher perto de você está pensando em começar alguma, o melhor conselho que eu posso dar é que comece. No Tenko a gente treina Aikido, que vem do jujutsu, a arte de combate japonesa da mesma família das artes de agarrar que o brasileiro conhece pelo jiu-jitsu, e que trabalha a técnica sem competição. Pra esse tema, isso pesa de um jeito particular, porque metade do treino de Aikido é receber: aceitar o ataque, ficar no lugar, cair e levantar. E pra quem passou a vida aprendendo a recuar, aprender a ficar já é muita coisa.

No Ted Lasso, a virada das jogadoras leva uma temporada inteira, e no tatame também leva tempo, bem mais do que só dez episódios. Mas acontece, e dá pra ver de fora. O que pouca gente espera é o que vem junto: quando a aluna começa a usar a força de verdade, aparece outro medo, bem mais silencioso, o de deixar de ser feminina. É dele que eu falo na parte 2.


Nota: este texto é informativo. As datas, a legislação e as pesquisas estão nas referências abaixo. As observações sobre as alunas são a minha experiência como instrutor, não dados de pesquisa.


Referências

Mark Araujo

Mark Araujo é Diretor de Arte, Designer Gráfico e especialista em liderança, atuando na intersecção entre o design moderno e a sabedoria das artes marciais. Ao longo de uma carreira de 25 anos, desenvolveu sistemas visuais para marcas globais em São Paulo, Espanha e Austrália, enquanto aprofundava sua prática no tatame.

Mark treinou Aikido por cerca de 9 anos com Reishin Kawai Shihan (8º Dan Aikikai) — o mestre responsável por introduzir a arte no Brasil — e, mais tarde, expandiu sua jornada pelas linhagens Iwama e Tomiki na Austrália. Influenciado por seus estudos de Zen e meditação com a Monja Coen, Mark leva os princípios de segurança psicológica, alinhamento cultural e presença focada para equipes criativas e líderes que enfrentam ambientes de alta pressão.

https://markaraujo.com
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