Um Conto de Terry Dobson

Foto de Amos Bar-Zeev (Unsplash)

Permita-me compartilhar com você um conto incrível intitulado “Uma Palavra Gentil Afasta a Ira”, escrito pelo talentoso Terry Dobson. Esse episódio notável aconteceu em um trem de Tóquio e marcou seu lugar na história quando ganhou as páginas da “Reader’s Digest”, na década de 1970. Hoje, essa história profunda é celebrada por toda a vastidão da internet, erguida por incontáveis praticantes de Aikido como um testemunho luminoso dos nobres princípios que sustentam essa arte e a verdadeira resolução de conflitos.


O TREM CHACOALHAVA e rangia pelos subúrbios de Tóquio em uma sonolenta tarde de primavera. Nosso vagão estava relativamente vazio — algumas donas de casa com seus filhos a tiracolo, alguns idosos indo às compras. Eu olhava distraído para as casas sem graça e as cercas-vivas empoeiradas.

Em uma estação, as portas se abriram e, de repente, a quietude da tarde foi rasgada por um homem bradando palavrões violentos e incompreensíveis. O homem entrou cambaleando no nosso vagão. Vestia roupas de operário e era grande, bêbado e sujo. Aos gritos, deu um golpe em uma mulher que segurava um bebê. O golpe a fez girar e cair no colo de um casal de idosos. Foi um milagre ela ter saído ilesa.

Apavorado, o casal levantou-se de um salto e correu para a outra extremidade do vagão. O operário tentou chutar as costas da senhora que recuava, mas errou quando ela se esgueirou para um lugar seguro. Isso deixou o bêbado tão enfurecido que ele agarrou a barra de metal no centro do vagão e tentou arrancá-la do suporte. Eu podia ver que uma de suas mãos estava cortada e sangrando. O trem deu um solavanco para a frente; os passageiros, paralisados de medo. Eu me levantei.

Eu era jovem na época, uns 20 anos atrás, e estava em boa forma. Vinha treinando Aikido por sólidas oito horas quase todos os dias nos últimos três anos. Gosto de projetar e de agarrar. Eu me achava durão. O problema é que minha habilidade marcial nunca havia sido testada em combate real. Como estudantes de Aikido, não tínhamos permissão para lutar.

“O Aikido”, dizia meu professor repetidamente, “é a arte da reconciliação. Quem tem a mente voltada para a luta rompeu sua conexão com o universo. Se você tenta dominar as pessoas, já está derrotado. Estudamos como resolver o conflito, não como iniciá-lo.”

Terry Dobson e O-Sensei, Morihei Ueshiba

Eu ouvia suas palavras. Eu me esforçava, a ponto de atravessar a rua para evitar os chimpira (yakuzas japoneses de baixa patente), os pivetes de fliperama que ficavam à toa pelas estações de trem. Minha tolerância me exaltava. Eu me sentia, ao mesmo tempo, durão e santo. No fundo, porém, eu queria uma oportunidade absolutamente legítima de salvar os inocentes destruindo os culpados.

É agora!, disse a mim mesmo, pondo-me de pé. As pessoas estão em perigo e, se eu não fizer algo rápido, elas provavelmente vão se machucar. Ao me ver de pé, o bêbado reconheceu uma chance de concentrar sua fúria. “Ahá!”, rugiu. “Um estrangeiro! Você precisa de uma lição de boas maneiras japonesas!” Segurei de leve a alça suspensa e lhe lancei um olhar lento de desprezo e indiferença. Eu pretendia desmontar aquele palhaço, mas ele teria de dar o primeiro passo. Eu queria deixá-lo furioso, então franzi os lábios e lhe mandei um beijo insolente.

“Tá bom!”, ele berrou. “Você vai ter uma lição.” Preparou-se para se atirar contra mim. Uma fração de segundo antes que pudesse se mover, alguém gritou “Ei!”. Foi ensurdecedor. Lembro-me da qualidade estranhamente alegre e cantada daquele grito — como se você e um amigo estivessem procurando algo com afinco, e ele de repente tropeçasse no objeto. “Ei!”

Girei para a esquerda; o bêbado virou-se para a direita. Nós dois encaramos um pequenino senhor japonês. Ele devia estar bem na casa dos setenta, aquele cavalheiro miúdo, sentado ali, impecável em seu quimono. Ele não me deu a menor atenção, mas sorriu, encantado, para o operário, como se tivesse um segredo importantíssimo e muito agradável para compartilhar.

“Vem cá”, disse o velho num linguajar simples, fazendo sinal para o bêbado. “Vem cá conversar comigo.” Ele acenou de leve com a mão. O homenzarrão obedeceu, como se puxado por um fio. Plantou os pés de modo belicoso diante do velho cavalheiro e rugiu, acima do barulho das rodas: “Por que diabos eu deveria falar com você?” O bêbado agora estava de costas para mim. Se o cotovelo dele se mexesse um milímetro que fosse, eu o derrubaria ali mesmo.

Foto de Note Thanun (Unsplash)

O velho continuou a sorrir para o operário. “O que você andou bebendo?”, perguntou, os olhos brilhando de interesse. “Estive bebendo saquê”, berrou o operário de volta, “e isso não é da sua conta!” Gotículas de saliva respingaram no velho. “Ah, que maravilha”, disse o velho, “absolutamente maravilhoso! Sabe, eu também adoro saquê. Toda noite, minha esposa (ela tem 76 anos, sabe?) e eu esquentamos uma garrafinha de saquê e a levamos para o jardim, e nos sentamos num velho banco de madeira. Vemos o sol se pôr e olhamos como anda o nosso caquizeiro. Meu bisavô plantou aquela árvore, e a gente fica preocupado se ela vai se recuperar daquelas tempestades de gelo do inverno passado. Mas a nossa árvore se saiu melhor do que eu esperava, especialmente se você considerar a má qualidade do solo. É gratificante observar, quando pegamos o saquê e saímos para aproveitar a noite — mesmo quando chove!” Ele ergueu os olhos para o operário, com um brilho no olhar.

Enquanto se esforçava para acompanhar a conversa do velho, o rosto do bêbado começou a se suavizar. Seus punhos se abriram lentamente. “É”, ele disse. “Eu também adoro caqui…” Sua voz se apagou. “Sim”, disse o velho, sorrindo, “e tenho certeza de que você tem uma esposa maravilhosa.” “Não”, respondeu o operário. “Minha esposa morreu.” Muito suavemente, balançando com o movimento do trem, o homenzarrão começou a soluçar. “Eu não tenho esposa, não tenho casa, não tenho emprego. Tenho tanta vergonha de mim mesmo.” Lágrimas rolaram por seu rosto; um espasmo de desespero percorreu seu corpo.

"Gosto de projetar e de agarrar. Eu me achava durão. O problema é que minha habilidade marcial nunca havia sido testada em combate real."

Agora era a minha vez. Parado ali, com minha inocência juvenil bem-lustrada, com minha retidão de “tornar este mundo seguro para a democracia”, de repente me senti mais sujo do que ele. Então o trem chegou à minha estação. Quando as portas se abriram, ouvi o velho estalar a língua em solidariedade. “Ai, ai”, ele disse, “isso é mesmo uma situação difícil. Sente-se aqui e me conte.”

Virei a cabeça para uma última olhada. O operário estava esparramado no banco, a cabeça no colo do velho. O velho acariciava com suavidade aquele cabelo sujo e emaranhado.

Quando o trem partiu, sentei-me num banco. O que eu quisera fazer com músculos havia sido realizado com palavras gentis. Eu acabara de ver o Aikido posto à prova em combate, e a essência dele era o amor. Eu teria de praticar a arte com um espírito completamente diferente. Levaria muito tempo até que eu pudesse falar sobre a resolução de conflitos.


O texto acima é um trecho do mestre de Aikido Terry Dobson, da antologia “The Peaceful Warrior”, organizada por Rick Fields (Tarcher/Putnam, 1994), conforme recontado por Ram Dass em An Experiment in Awareness — Mile High Church, Colorado, 24 de junho de 1994.

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