Como as artes marciais ajudam o cérebro neuro divergente
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Um cérebro que funciona diferente não precisa ser consertado. Mas pode ser treinado. E, dentro dos limites que a ciência começa a mapear, a prática marcial parece ser um bom lugar para isso.
O que é um cérebro neurodivergente
Um cérebro neurodivergente é aquele que funciona de um jeito diferente do padrão que a sociedade convencionou chamar de "típico". Isso inclui condições como o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e a dislexia. Não é uma doença nem um defeito. É uma forma particular de pensar, aprender e enxergar o mundo, com pontos fortes e desafios próprios.
Boa parte do que se costuma associar a essas condições passa pelo funcionamento executivo. As funções executivas são o conjunto de processos mentais que nos ajudam a focar, controlar impulsos, segurar informação na memória enquanto agimos e mudar de estratégia quando a situação muda. No TDAH, é justamente aí que aparecem as diferenças mais marcantes. Muitas pessoas autistas também apresentam diferenças no funcionamento executivo, mas o autismo não se resume a isso: envolve também diferenças sensoriais, sociais e de comunicação, e o perfil pode ser bastante distinto do TDAH.
Por que as artes marciais entram nessa conversa
Poucas atividades combinam, ao mesmo tempo, movimento, tomada de decisão, regulação emocional e interação social. A prática marcial faz tudo isso junto, em tempo real, e é exatamente essa combinação que tem chamado a atenção de pesquisadores.
Em 2025, Carola Costanza e uma equipe de pesquisadores italianos publicaram uma revisão narrativa reunindo onze estudos sobre artes marciais e TDAH, em modalidades como taekwondô, judô, caratê, kung fu, qigong e tai chi. A conclusão foi que a prática esteve associada a melhoras na atenção, na memória de trabalho e no controle inibitório, com efeito mais consistente nas modalidades mais estruturadas, como o judô e o taekwondô. Alguns estudos também relataram benefícios emocionais e comportamentais, como menor impulsividade e melhor autorregulação. Os autores levantam ainda uma hipótese epigenética, de que a atividade física poderia influenciar a expressão de genes, mas deixam claro que ainda não há evidência direta disso. Vale registrar como hipótese, não como fato.
No autismo, um estudo se destaca pelo desenho rigoroso. Em 2019, Janice N. Phung e Wendy A. Goldberg conduziram um ensaio clínico randomizado com crianças em idade escolar diagnosticadas com TEA. As crianças foram sorteadas para um grupo que participou de um programa de artes marciais mistas (26 aulas ao longo de 13 semanas) ou para um grupo de controle em lista de espera, que não praticou. Ao final, o grupo que treinou apresentou funções executivas significativamente melhores do que o grupo de controle, com ênfase na regulação do comportamento e das emoções. Importante: isso não aconteceu por mudar quem essas crianças são, mas por lhes dar ferramentas para lidar com as demandas do dia a dia.
Onde o Aikidô se encaixa
Aqui é preciso honestidade. Nenhum desses estudos analisou o Aikidô diretamente. Eles olharam para judô, caratê, taekwondô e artes marciais mistas. Além disso, são amostras relativamente pequenas, e a revisão de TDAH é narrativa, ou seja, sintetiza a literatura sem combinar os dados em um único resultado estatístico. Nada disso prova que o Aikidô produza os mesmos efeitos.
O que se pode dizer, com os pés no chão, é que o Aikidô treina exatamente as mesmas funções que esses estudos mediram, e faz isso de um jeito particular: cooperativo, não competitivo. Em vez de um adversário a ser vencido, há um parceiro. Em vez de força contra força, há conexão.
Pense em uma única técnica como um exercício vivo de função executiva. Você precisa manter várias informações ativas ao mesmo tempo: a postura do parceiro, a distância, o próprio centro. Precisa perceber o movimento do outro e se adaptar quando ele muda. No Aikidô, essa adaptação é literal: o tenkan, o giro que recebe e redireciona a força em vez de bloqueá-la, é a flexibilidade cognitiva virando corpo. O awase, a sintonia com o movimento do parceiro, é atenção sustentada. A respiração, o kokyu, é regulação emocional e fisiológica acontecendo enquanto alguém avança na sua direção. E o ukemi, a arte de cair e se levantar, ensina que perder o equilíbrio não é o fim, é parte do movimento.
Para uma pessoa neurodivergente, a natureza cooperativa muda a experiência. Não há placar, não há a pressão social de vencer o outro. Há um espaço estruturado e previsível, com regras claras, onde o contato acontece dentro de um enquadramento seguro. Para quem tem diferenças sensoriais ou sociais, isso pode fazer toda a diferença entre um ambiente que sobrecarrega e um que acolhe.
Por que o tatame ensina de um jeito diferente
O ponto central é este: o cérebro não aprende essas habilidades apenas ouvindo sobre elas. Ele aprende agindo, sob pressão, exatamente no contexto em que elas são necessárias. Você não pratica "manter a atenção" de forma abstrata. Você mantém a atenção porque alguém está prestes a te desequilibrar. Você não treina "regular a emoção" na teoria. Você respira e se recentra porque o corpo do outro está em movimento.
É por isso que pesquisadores enxergam as artes marciais como uma intervenção complementar promissora para parte das pessoas neurodivergentes. Complementar, não substituta de acompanhamento clínico ou terapêutico. Não porque a prática muda quem elas são, já que não há nada quebrado, mas porque cada treino é mais uma oportunidade concreta de exercitar, no corpo, as funções que aquele cérebro já está tentando fortalecer.
Uma pergunta para ficar
Talvez o mais interessante desses estudos não seja o que eles provam sobre artes marciais, mas o que sugerem sobre aprendizado. Há funções que a gente não desenvolve explicando, só praticando, no corpo, sob a pressão certa. Se isso é verdade, a pergunta deixa de ser como corrigir um cérebro que funciona diferente e passa a ser outra: que ambientes estamos oferecendo a ele para treinar aquilo que já está tentando fortalecer?
Referências
Costanza, C., Colecchia, F. P., Polito, R., Monda, M., Carotenuto, M., Messina, G., Monda, A., Mancini, N., Moscatelli, F., Bargiacchi, G., & Ruberto, M. (2025). Martial Arts and ADHD: A Narrative Review of Cognitive, Behavioral, and Epigenetic Effects. Physical Education Theory and Methodology, 25(3), 684-690. https://doi.org/10.17309/tmfv.2025.3.26
Phung, J. N., & Goldberg, W. A. (2019). Promoting Executive Functioning in Children with Autism Spectrum Disorder Through Mixed Martial Arts Training. Journal of Autism and Developmental Disorders, 49(9), 3669-3684. https://doi.org/10.1007/s10803-019-04072-3
Este texto faz parte da série Da Força ao Fluxo. Seu caráter é educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento profissional. Se você busca apoio para questões relacionadas a TDAH ou autismo, procure um profissional de saúde qualificado.