O que muda quando você para de tentar consertar as pessoas?
"Ele é muito problemático. Não sabemos o que fazer com ele."
Essa era a frase que eu mais ouvia nos meus primeiros meses ensinando Aikido em um orfanato em São Paulo. Equipe diferente. As mesmas palavras. Às vezes sobre crianças cujos nomes eu esqueci e cujos rostos eu não reconheci, mas principalmente sobre Lucas.
Ilustração de Lucas
A maior parte do que eu vim a entender mais tarde sobre liderança, cultura e as condições que permitem que as pessoas mudem, eu aprendi não em uma sala de reuniões, mas naquele tatame. Eu não sabia disso na época. Eu só estava tentando ensinar Aikido.
Tentei conversar com Lucas primeiro. Não deu em nada.
O mundo dele estava de cabeça para baixo. Ele aprendeu muito cedo que os adultos traziam problemas, não soluções, e não tinha motivos para acreditar que eu fosse diferente. A equipe passou dezoito meses tentando lidar com ele. Ele passou dezoito meses aprendendo como era a gestão e se tornou muito bom em prevê-la.
Então eu fiz algo que deixou todos desconfortáveis. Dei a ele responsabilidade.
Em todos os dias de aula, os colchonetes precisavam ser estendidos antes do início do treino. Essa passou a ser a tarefa de Lucas. Ele chegava antes de todos, organizava tudo e esperava.
Era só isso. Sem palavras. Sem condições. Sem promessas de que as coisas seriam diferentes se ele se comportasse. Apenas uma tarefa que era dele, e o sinal silencioso implícito: Acho que você é confiável para isso.
A mudança era visível. Não gradualmente, não eventualmente. Em poucas semanas, as mesmas pessoas que haviam me procurado com as mãos levantadas estavam perguntando qual era o meu segredo.
"Parei para ouvir", eu disse.
Lucas começou a arrumar a cama de manhã. A brincar com outras crianças. A falar gentilmente com os funcionários. A agitação não havia desaparecido. Ela havia encontrado um caminho para ir.
A prática tem sua própria lógica. Ela não recompensa tamanho, volume ou a demonstração de confiança. Ela recompensa a presença. E a presença, como se vê, está disponível para todos, independentemente do que trouxeram consigo.
O que aprendi com Lucas e com os outros que vieram até aquele tapete carregando coisas que nunca lhes haviam sido pedidas para largar, é que a resistência é informação, não obstrução. A pessoa que não consegue ficar parada não está descumprindo as regras. Ela está lhe dizendo algo verdadeiro sobre o que o ambiente exige dela.
A atenção não é uma característica de personalidade. É uma resposta às circunstâncias.
Ilustração de Lucas
Ao longo dos anos, também ensinei adultos. Executivos que chegavam ainda com seus celulares na mão. Adolescentes cuja resistência era uma armadura que haviam construído ao longo de anos. Uma mulher na casa dos cinquenta que veio porque seu médico sugeriu que ela encontrasse um lugar para lidar com sua ansiedade, e que chorou baixinho após a primeira aula sem conseguir explicar o porquê.
O que a prática oferecia a todos eles era a mesma coisa. Não era desafio. Não era terapia. Era uma estrutura precisa o suficiente para exigir atenção genuína e tolerante o bastante para que errar fosse apenas mais uma repetição.
As pessoas não mudam quando são pressionadas. Elas mudam quando se sentem seguras o suficiente para tentar algo que podem dar errado.
Isso não é uma filosofia. É o que eu observei acontecer, semana após semana, em corpos que chegavam na defensiva e saíam, gradualmente, menos.
A prática não conserta as pessoas. Ela oferece a elas uma estrutura na qual algo que já existia dentro delas tem espaço para vir à tona.
Toda sala de reuniões já é um tapete, quer se reconheça como tal ou não. Toda organização já exige algo das pessoas que a compõem por meio de seus ritmos, seus rituais, os pequenos sinais do que é valorizado e do que não é.
A questão é a mesma que me acompanhava naquela tarde em São Paulo, observando um menino a quem haviam dito de todas as formas possíveis que ele era demais.
O que essas condições exigem das pessoas que as compõem? E o que mudaria se essas condições fossem planejadas intencionalmente?
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