A Essência do Sensei
Quando ouvimos a palavra “sensei”, talvez comecemos a imaginar um personagem interessante e cativante, com ares de herói — possivelmente uma mistura da esperteza do Sr. Miyagi, da reflexão profunda de Toshiro Mifune e do ar misterioso do Mestre Jedi Yoda. Essa imagem, moldada por filmes e histórias, é cheia de mística japonesa e costuma encontrar um cantinho aconchegante em nossa mente.
Embora uma versão dessa pessoa possa existir — incluindo o meu sensei, Reishin Kawai —, encontrá-la não tem tanto a ver com descobrir o personagem ideal ou alguém que corresponda ao que os filmes nos mostram. A verdadeira essência de um sensei vai muito além dessas ideias glamourizadas. É uma forma elegante e discreta de lidar com os desafios, de compreender os outros e de ser capaz de aconselhar enquanto guia você no tatame — é isso que constitui a essência de um sensei.
Antes de aprofundarmos quem ou o que é um sensei, vamos esclarecer alguns equívocos comuns. Um sensei não é um técnico (coach), uma figura paterna, um guru sábio, uma pessoa santa ou um oráculo que tudo sabe. Essas descrições simplistas não captam por completo o que essa figura representa. O sensei não se encaixa em um molde. Nem sempre é velho e sábio, paciente e onisciente, ou invencível e perfeito. Em vez disso, o início da história do sensei vem de uma mistura de cultura e história das antigas tradições japonesas.
Ao longo da história, ser sensei esteve ligado a papéis como o de iemoto ou soke, vistos como o principal dirigente de uma escola ou estilo específico. Com o tempo, essas escolas formais tornaram o papel do sensei mais estruturado. Por volta do século XV, essas escolas já eram parte importante do ensino japonês.
Deixando o ensino de lado, a trajetória do sensei foi moldada por uma série de valores diferentes:
Agricultura e comunidade: Antigamente, no Japão, ser líder em comunidades muito unidas significava ter de orientar e manter todos juntos para alcançar os melhores resultados.
Ensino pessoal: Como nem sempre havia muito conhecimento registrado por escrito, as pessoas precisavam transmitir habilidades de um para um. Isso criava uma profundidade de conexão entre as pessoas, que tinham a chance de compartilhar conhecimento diretamente.
Mistura de confucionismo e tradição: O Japão combinou algumas ideias confucionistas com o respeito pela idade e pela ordem social. É daí que vem toda a relação entre professor e aluno.
É muito mais do que apenas títulos e graduações
A palavra sensei pode ser resumida como “pessoa nascida antes de outra” ou “aquele que vem antes”. Ou, neste caso, a pessoa que aprendeu os caminhos antes de você e ensina com base na sabedoria da experiência e da prática pessoais. Hoje, nos grupos modernos de artes marciais, ser sensei pode depender de vários fatores, incluindo o seu nível de habilidade ou há quanto tempo você treina. Mas o que isso significa pode variar conforme a arte.
Essa combinação de liderar e ajudar os outros mostra o quanto o papel do sensei é crucial nas artes marciais modernas. Encontrar o equilíbrio certo entre as tradições e as novas formas de ensinar pode ser desafiador, especialmente ao ensinar grandes grupos. Mas esse é o papel de quem “vem antes”. E só assim professor e aluno podem aprimorar e motivar um ao outro.
À medida que as artes marciais evoluíram, a ideia do ensino pessoal permaneceu. Depois da Segunda Guerra Mundial, mais pessoas passaram a frequentar escolas de artes marciais, e o sensei tornou-se mais um líder de grupo do que um instrutor pessoal.
No Japão, a palavra sensei é muito usada. No dojo, geralmente designa o instrutor sênior. Alguns lugares usam títulos diferentes, como renshi, kyoshi ou shidoin, para indicar a importância de cada papel.
O papel do sensei pode ser complexo — tanto que alguns mentores contemporâneos de artes marciais preferem evitar o título e escolher outro de conotação menos pesada, para não carregar o peso que ele pode trazer. É uma escolha consciente, que reconhece que a palavra já foi usada de diferentes maneiras e carrega certas expectativas.
Escolhendo o mentor certo
Encontrar o sensei certo para você é importante quando se começa em um dojo. Não deixe que graduações altas ou currículos de competição impressionantes turvem o seu julgamento. Em vez disso, busque alguém com quem você possa realmente se conectar e uma relação em que haja respeito mútuo. A conexão pode levar tempo, então esteja aberto às conversas entre você e seu sensei.
Quando estiver em uma aula pela primeira vez, não deixe que a intensidade ou a aparente dureza externa de um sensei o desanimem. Disciplina e instrução fazem parte do processo, mas lembre-se: seu sensei também é uma pessoa, e existe uma versão dele que vive para além do tatame. Dê a si mesmo tempo para conhecer essa pessoa e para que ela lhe mostre quem é.
Outro aspecto importante é observar como os outros alunos do dojo se comportam. Eles são respeitosos e amigáveis, ou parecem arrogantes ou grosseiros? Cada dojo tem seu próprio jeito de funcionar, e descobrir isso pode ser difícil; mas um sinal de bom instrutor é alguém capaz de conduzir o ambiente e de tratar cada pessoa com gentileza, respeito e dignidade.
Pode levar tempo para encontrar o lugar certo, então não hesite em conversar com os instrutores desde o início. Faça as perguntas que forem importantes para você — sobre a arte marcial, o treino e as filosofias deles. Encontre alguém alinhado com seus valores e, como sempre, confie na sua intuição.