A força que ensinaram a mulher a segurar

Mulheres e artes marciais, parte 2

Tem uma cena que se repete no tatame com uma regularidade quase previsível. A aluna já treina há alguns meses, já entendeu a técnica, já sabe onde colocar o pé, e na hora de executar ela entrega metade. Alivia a pegada, segura o empurrão no meio do caminho, projeta o parceiro com um cuidado que ninguém pediu. Falta de técnica não é, porque quando eu peço pra ela repetir com tudo, ela faz, e faz bem. O que segura o movimento está em outro lugar.

Se você perguntar a qualquer pessoa o que assusta uma mulher que começa a treinar uma arte marcial, a resposta quase sempre vai ser apanhar, se machucar, levar um golpe. Esse medo existe, mas o que eu vejo travar a aluna no meio da técnica é outro, mais silencioso e quase nunca dito em voz alta: o medo de virar dura demais, agressiva demais, masculina demais. A sensação de que a força, se usada inteira, cobra um preço na feminilidade.

Na parte 1 deste texto eu falei do hábito de ocupar menos espaço, que a menina aprende cedo e que o treino vai desfazendo aos poucos. Esse medo costuma aparecer logo depois, justamente quando o hábito começa a ceder e ela percebe que tem mais força do que imaginava. E ele merece um texto só dele, porque a resposta honesta é bem mais interessante do que a frase de efeito.

O que a pesquisa encontrou no espelho

A frase de efeito seria dizer que esse medo não tem fundamento, que ela usa toda a força e continua exatamente igual. A experiência da pesquisadora Maya Maor, que treinou jiu-jitsu brasileiro por cinco anos, entrevistou mais de sessenta praticantes e publicou o resultado em 2018 na revista acadêmica Martial Arts Studies, conta uma história mais rica do que isso.

Boa parte dessa história gira em torno de um detalhe que parece bobo, o jeito de amarrar a faixa. No grupo dela, os homens amarravam a faixa baixa, no quadril, e as mulheres, alta, na cintura. Uma das alunas explicou que amarrava na cintura porque, ao entrar no tatame e vestir o quimono, já se sentia menos feminina do que gostaria, e a faixa alta era o jeito de manter alguma coisa de si. Maor decidiu amarrar como os homens e levou seis meses pra aprender o nó direito. No primeiro treino com a faixa no quadril, não teve coragem de se olhar no espelho. No segundo, olhou e levou um susto, porque achou que parecia um homem. No terceiro, voltou a amarrar na cintura. No quarto, desceu a faixa de novo, e nunca mais subiu.

Anos depois, ela diz que não se sente parecida com um homem com a faixa no quadril. O corpo dela continua diferente do corpo médio dos colegas, e ela continua carregando o próprio jeito de ser mulher. A faixa baixa, nas palavras dela, nunca foi uma tentativa de ser como eles, e sim uma forma de criar algo diferente com o próprio corpo.

É aí que a pesquisa fica mais honesta do que qualquer discurso motivacional. O medo de parecer masculina não some porque alguém garante que ele é infundado. Ele passa por um período real de estranhamento, diante do espelho, e o que aparece do outro lado não é a mulher de antes nem uma cópia dos homens do grupo, mas uma combinação que cada uma monta do seu jeito. Uma judoca grega, entrevistada em outro estudo que Maor cita, descreveu esse lugar assim: "Você não é nem homem nem mulher. Você é uma coisa estranha pro resto das pessoas." Dito desse jeito parece triste, mas o que Maor mostra é que, dentro do tatame, esse lugar estranho pode ser justamente onde a mulher para de ter que escolher.

O corpo que faz e o corpo que é olhado

Pra entender de onde vem esse medo, vale olhar pra outra observação de Maor, talvez a mais precisa do artigo inteiro. Ela conta que, nas aulas sem quimono, fica constrangida quando usa uma blusa um pouco mais decotada, enquanto vários homens treinam sem camisa sem pensar duas vezes. E resume a diferença numa frase que eu não consigo esquecer: o corpo masculino é só um corpo humano, e o que importa nele é o que ele faz, não o que ele desperta nos outros.

O corpo da mulher raramente tem esse privilégio, porque costuma ser lido primeiro pelo que provoca e só depois pelo que faz. O medo de "virar masculina" no treino tem muito a ver com isso, com a ameaça de deixar de ser lida do jeito esperado. E o mundo de fora reforça essa leitura de várias formas. Maor ouviu um instrutor comentar com um amigo, depois do treino, que as mulheres que treinavam com eles "não eram mulheres de verdade". Uma revisão de estudos sobre mulheres no MMA, publicada em 2020 por pesquisadoras do Brasil e de Portugal, encontrou um padrão parecido no esporte profissional. Dentro do octógono, a lutadora pode ser forte, técnica e corajosa, mas fora dele espera-se que volte a ser delicada e vaidosa, como se precisasse compensar a força com uma dose extra de feminilidade. A mesma revisão traz um detalhe que diz muito: o hematoma que, dentro da academia, é sinal de coragem e de pertencimento, fora dela costuma ser lido como sinal de que aquela mulher apanhou de alguém.

No treino, essa conta se inverte. Quando a mulher usa o corpo inteiro, com força, ele volta a ser um corpo que faz. O parceiro não está olhando pra ela, está ocupado tentando não ser projetado. E é nesse momento que muita aluna descobre de onde vinha o medo, porque a sensação de estar sendo olhada, que pesava tanto lá fora, simplesmente não tem espaço ali dentro.

Onde o dojo faz diferença

Tudo isso depende de uma condição que quase ninguém menciona quando fala de mulheres e artes marciais, que é o lugar onde ela treina. E aqui eu preciso falar dos homens, eu incluído.

A mulher adulta que começa a treinar raramente chega com a mesma bagagem do homem médio. Costuma ter menos experiência com contato físico, menos histórico de briga e brincadeira bruta na infância, e muito mais chance de já ter sofrido alguma forma de violência vinda de um homem. Maor observa que, pra treinar com ela de verdade, o homem precisa mudar o próprio jeito de treinar, dosando a força, controlando a velocidade e criando um ambiente onde ela possa errar sem medo. Ela chama isso de um cuidado que passa pelo corpo, e conta um episódio que mostra bem do que se trata.

Ela tinha pavor de uma queda específica, uma derrubada em que o parceiro agarra as duas pernas e tira você do chão, e precisava fazer e receber essa queda no exame de faixa. Pediu ajuda a um instrutor, e toda vez que ele começava a levantá-la, ela entrava em pânico, endurecia o corpo e resistia. Em vez de gritar, empurrar ou insistir, como ela já tinha visto outros instrutores fazerem, ele chamou um colega pra fazer a queda nele, devagar, pra que ela visse que era seguro. Depois perguntou do que exatamente ela tinha medo, e ouviu. Por fim, disse que, se ela ainda estivesse com medo, podia abraçá-lo enquanto ele a levantava. Ela abraçou, ele a tirou do chão e a deitou com cuidado, e algumas repetições depois ela conseguiu fazer e receber a queda. Maor escreve que só poder falar do medo já ajudou, porque em muitas academias falar de medo é tabu.

O que eu acho mais importante nessa história é que o instrutor também saiu ganhando. Treinar com quem é menor e mais lento obriga o homem a depender da técnica e não da força bruta, que é exatamente o que ele vai precisar no dia em que encontrar alguém maior do que ele. O cuidado, nesse caso, deixa o treino dele melhor.

Mas eu seria desonesto se pintasse o tatame como um lugar automaticamente seguro. Uma faixa-preta e instrutora que Maor entrevistou contou que, no começo da carreira, precisou interromper um treino pra dizer a um colega que nunca mais falasse com ela daquele jeito, depois de um comentário de duplo sentido sobre a posição em que estavam. Maor diz ter ouvido muitas histórias assim, e viveu algumas. O caso que mais me incomoda aconteceu numa aula de Aikido, a arte que eu ensino: durante o ano em que treinou lá, ela recebeu de alunos graduados um apelido ofensivo, de cunho sexual, além de outros comentários do mesmo tipo. A arte não protege ninguém sozinha. Quem protege é quem está na frente da turma, e aquilo que essa pessoa deixa passar.

Do outro lado do mundo, uma pesquisa feita no Quirguistão com 25 instrutores de Aikido deu uma medida de como esse cuidado ainda é pouco pensado. Perguntados se as alunas se sentiam protegidas nos seus direitos durante o treino, 17 responderam que nunca tinham pensado no assunto. É um estudo pequeno, feito dentro da própria federação, e não dá pra tirar grandes conclusões dele, mas essa resposta, vinda de quem ensina, diz bastante.

O que procurar num dojo

Se você que é mulher, ou uma mulher perto de você está pensando em começar, vale prestar atenção em algumas coisas já na aula experimental, em qualquer arte. Veja se há mulheres treinando, e se possível ensinando, porque isso diz mais do que qualquer texto no site. Repare se o instrutor forma as duplas pensando em tamanho e experiência, e se quem é mais forte dosa a força com quem está começando. Preste atenção no que acontece quando alguém solta uma piada de duplo sentido, porque um bom professor corta na hora, sem precisar de discurso. E veja se dá pra falar de medo ali dentro, se a dúvida e o receio são tratados como parte do aprendizado ou como fraqueza.

No Tenko a gente treina Aikido, e eu me esforço pra que essas perguntas tenham boas respostas lá dentro. Mas elas valem pra qualquer dojo, de qualquer arte, e vale fazer todas antes de decidir onde treinar.

Forte, e ela mesma

Quando a aluna finalmente usa tudo o que tem, projeta de verdade e segura a posição sem pedir licença, o que eu vejo é alguém que parou de negociar com um medo que colocaram nela. Ela continua sendo quem é, só que agora com o corpo inteiro. O caminho até ali passa pelo espelho, pelo estranhamento, às vezes por uma faixa amarrada e desamarrada algumas vezes, e depende muito de quem está treinando do lado. Mas ele existe, e a mulher que chega do outro lado descobre que nunca precisou escolher entre ser forte e ser ela mesma.


Nota: este texto é informativo. As pesquisas citadas estão nas referências abaixo. As observações sobre as alunas são a minha experiência como instrutor, não dados de pesquisa.


Referências

Mark Araujo

Mark Araujo é Diretor de Arte, Designer Gráfico e especialista em liderança, atuando na intersecção entre o design moderno e a sabedoria das artes marciais. Ao longo de uma carreira de 25 anos, desenvolveu sistemas visuais para marcas globais em São Paulo, Espanha e Austrália, enquanto aprofundava sua prática no tatame.

Mark treinou Aikido por cerca de 9 anos com Reishin Kawai Shihan (8º Dan Aikikai), o mestre responsável por introduzir a arte no Brasil, e, mais tarde, expandiu sua jornada pelas linhagens Iwama e Tomiki na Austrália. Influenciado por seus estudos de Zen e meditação com a Monja Coen, Mark leva os princípios de segurança psicológica, alinhamento cultural e presença focada para equipes criativas e líderes que enfrentam ambientes de alta pressão.

https://markaraujo.com
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