As artes marciais tradicionais estão morrendo?

O Kendo, a esgrima japonesa, é praticada com espada de bambu e armadura, herdeira direta da tradição dos samurais.

Outro dia um aluno me fez uma pergunta que eu escuto de tempos em tempos, em versões diferentes: as artes marciais tradicionais estão morrendo? Ela costuma vir acompanhada de alguma prova tirada do celular, seja o dojo histórico no Japão que fechou as portas, o fórum gringo listando as artes que "estão acabando" ou o comentário garantindo que o MMA matou o karatê. E como eu ensino Aikido, que quase sempre aparece no alto dessas listas, a pergunta chega comigo em tom de pêsames.

Antes de responder, fui atrás dos números. A primeira coisa que encontrei é que não existe nenhum estudo acadêmico declarando que as artes marciais tradicionais estão morrendo. O que existe é um punhado de sinais, alguns sólidos e outros bem frágeis, vindos de países e de artes diferentes, que muita gente costura numa manchete só. Por isso vale olhar arte por arte, antes de tirar qualquer conclusão.

Um retrato arte por arte

Muito antes de virar esporte olímpico, o Judô foi criado como um caminho de formação pessoal.

Começo pelo judô, porque é o caso mais surpreendente. No Japão, onde Jigoro Kano criou a arte no fim do século 19, o número de praticantes registrados na Federação Japonesa de Judô caiu quase pela metade desde 2004, chegando a cerca de 120 mil pessoas, segundo uma reportagem da agência AFP de 2022 baseada nos números da própria federação. A queda mais forte é entre as crianças. E o motivo apontado pelo próprio presidente da federação, Yasuhiro Yamashita, campeão olímpico em 1984, não tem nada a ver com o MMA. Ele culpa a mentalidade de vencer a qualquer custo de pais e técnicos, que transformou o judô infantil num ambiente de pressão, corte de peso e, em alguns casos, castigo físico. A situação ficou tão séria que em 2022 a federação cancelou o campeonato nacional para crianças de 10 a 12 anos.

O kendo, a esgrima japonesa praticada com espadas de bambu e armadura, sofre de outro jeito. Boa parte dos praticantes no Japão começa no clube da escola, e é justamente aí que os números encolhem. Segundo dados da revista especializada Kendo Jidai, reunidos em 2023 pelo site kenshi247, o número de meninos registrados no kendo dos ginásios japoneses (o equivalente ao nosso fundamental II) caiu de cerca de 52,6 mil em 2017 para 42 mil em 2022, uma perda de um a cada cinco em só cinco anos. Entre as meninas a queda foi menor, de 33,2 mil para 30,3 mil. As causas apontadas são a queda da natalidade, a disputa com clubes escolares menos exigentes, o celular e uma reforma que, a partir de 2023, começou a tirar as atividades esportivas de dentro das escolas públicas e passá-las para clubes da comunidade.

Na Coreia do Sul, terra do taekwondo, o problema tem nome e sobrenome: a natalidade mais baixa do mundo. Segundo dados do Ministério do Interior coreano publicados pelo jornal Herald Business em 2024, 244 dojangs (o nome que se dá ao dojo de taekwondo) fecharam as portas em 2023, contra só 3 em 2013. Como cerca de 90% dos alunos desses dojangs estão em idade de ensino fundamental, eles fecham no mesmo ritmo das escolas primárias. Shin Myung-hee, que dirige um dojang, resumiu a situação num fórum do setor em 2023, citado pela mesma reportagem: a crise da natalidade é a crise dos dojangs.

O karatê viveu uma frustração de outra natureza. Depois de décadas de campanha, estreou nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2021, e foi cortado logo na edição seguinte, em Paris 2024, sem garantia de volta. Para muitos professores, a vitrine olímpica seria a forma de atrair uma geração nova, e ela durou uma edição só.

E então chegamos ao Aikido. Aqui o dado mais citado vem do Google Trends, a ferramenta do Google que mede o quanto as pessoas pesquisam um termo ao longo do tempo. Em 2017, Josh Gold, editor executivo do Aikido Journal, a principal publicação sobre Aikido no Ocidente, mostrou que o interesse mundial de busca pela palavra "aikido" tinha caído 86% desde 2004, num ritmo de cerca de 9% ao ano nos cinco anos anteriores. Em 2020 ele atualizou a conta, e a queda já chegava a 93%. No mesmo levantamento de 2017, o jiu-jitsu brasileiro aparecia passando o Aikido em interesse global ainda em 2010, e no Instagram, onde o público é mais jovem, o interesse pelo jiu-jitsu era mais de 25 vezes maior.

O dado que mais me preocupa no Aikido, porém, é outro. Numa pesquisa que o Aikido Journal fez em 2019, com 2.214 respondentes, só 4,8% dos praticantes nos Estados Unidos tinham menos de 30 anos, enquanto 81% passavam dos 40. A amostra tem limite, já que responde quem lê a revista, e quem lê tende a ser gente com mais tempo de tatame. Ainda assim, o desenho bate com o que qualquer professor enxerga na própria turma: muito faixa-preta com décadas de treino e pouca gente chegando. Gold chamou isso de pirâmide invertida e, já em 2017, escreveu que entre os 18 e os 29 anos o Aikido estava "perto da irrelevância total".

O que os números não mostram

O Taekwondo, a arte marcial nacional da Coreia do Sul, é conhecida pelos chutes altos e pela disciplina dos dojangs.

Colocados lado a lado, esses dados parecem confirmar a manchete. Só que, olhando com calma, eles contam histórias bem diferentes entre si.

Para começar, nem todo número mede a mesma coisa. Busca no Google mede curiosidade, não quantidade de gente treinando, e é o próprio Gold quem faz questão de dizer isso. Ele escreve com todas as letras que a revista não acredita que o número de praticantes de Aikido tenha caído na mesma proporção catastrófica. Então, quando você ler por aí que o Aikido "perde 9% dos alunos por ano", saiba que alguém pegou o dado de busca e trocou o rótulo.

Depois, as causas variam muito de uma arte pra outra. O taekwondo coreano e o kendo japonês estão encolhendo, antes de tudo, porque nascem cada vez menos crianças nos dois países, e uma arte que depende da escola e da infância sente isso primeiro. O judô japonês está perdendo alunos por excesso de competição, o que é quase uma ironia, já que a competição costuma ser apresentada como a salvação das artes tradicionais. Já o Aikido sofre mais com o envelhecimento da comunidade e com a dúvida sobre eficácia que acompanha toda arte sem torneio.

E, por fim, o interesse por artes marciais não sumiu. Ele mudou de endereço. O mesmo período que viu o Aikido despencar nas buscas viu o jiu-jitsu brasileiro e o muay thai explodirem, e qualquer academia de bairro em São Paulo confirma isso sem precisar de gráfico. As pessoas continuam querendo aprender a se defender, a suar num tatame e a pertencer a um grupo. O que mudou foi onde elas procuram isso.

A resposta honesta à pergunta do meu aluno, então, tem duas partes. Muitas artes tradicionais estão perdendo alunos, algumas de forma grave, inclusive nos próprios países de origem. Daí a dizer que estão morrendo vai uma distância que os dados não cobrem.

Por que o interesse caiu

Criado por Morihei Ueshiba e batizado em 1942, o Aikido guarda a raiz marcial do Daito-ryu e uma ideia rara entre as artes de combate, a de vencer sem destruir.

Em 2006, bem antes desses gráficos, Stanley Pranin, o pesquisador que dedicou a vida à história do Aikido e fundou o Aikido Journal, publicou um texto com a mesma pergunta deste artigo, e o título falava das artes marciais em geral. Ele não tinha estatística nenhuma. Tinha conversas com professores contando de turmas encolhendo, contratos de aluguel perdidos e dojos fechando. Mesmo assim, as causas que ele apontou valem para quase todas as artes tradicionais até hoje.

A primeira é a concorrência. As artes marciais deixaram de ser novidade no Ocidente e passaram a disputar o tempo das pessoas com milhares de outras opções, da academia de musculação ao streaming. A segunda é a perda de raiz: muito professor ensina a técnica sem conhecer a história e a filosofia que davam sentido a ela, e a arte acaba sem nada que a diferencie de uma aula de ginástica com faixa. A terceira é a ideia, cada vez mais forte, de que arte marcial é esporte, e esporte se prova em competição. Pranin usava justamente o judô e o kendo como exemplos de artes que, ao virarem esporte, se afastaram do propósito original, e o que a federação japonesa de judô admite hoje mostra que ele tinha razão. A quarta causa é a mais prosaica de todas, porque a maioria dos professores sabe ensinar e não sabe administrar, e abre o dojo sem reserva nenhuma no banco.

A essas quatro, os anos seguintes somaram outras. O MMA deu um empurrão enorme à terceira causa. Quando o público passou a ver luta de verdade na TV toda semana, as artes que treinam com teste ao vivo, como o jiu-jitsu e o muay thai, ganharam credibilidade, e as que não competem passaram a ser olhadas com desconfiança. Parte dessa desconfiança tem fundamento, e eu já escrevi sobre isso aqui no blog, em "A raiz marcial do Aikido": a falta de competição abre espaço pro charlatão, e o charlatão estraga a reputação de quem treina sério. A demografia, que Pranin não tinha como prever, virou o problema central no Japão e na Coreia. E por fim veio a pandemia, que fechou dojos por meses no mundo inteiro e, como lembra Ferenc Németh, professor da escola húngara Yurusu Aikido, afastou de vez muitos dos alunos mais velhos, justamente a base que sustentava as turmas.

Como as escolas estão se adaptando

Diante disso, quem vive de dar aula não ficou parado. Os caminhos aparecem repetidos nos blogs das empresas de software de gestão para academias, que vale ler com o devido desconto, porque elas vendem exatamente as ferramentas que recomendam. Muito dojo tradicional de karatê ou taekwondo abriu horários de jiu-jitsu ou de defesa pessoal pra segurar o aluno adulto. Outros apostaram ainda mais nas aulas infantis, que nos Estados Unidos já são a maior fatia das matrículas, e nos programas de contraturno escolar. Há quem venda aula online, quem ofereça treinamento para empresas, e quem finalmente passou a tratar a escola como negócio, com cobrança automática e um olho em quem começou a faltar antes que desista de vez. Na Coreia, já existe até livro sobre como um dojang pode sobreviver à queda da natalidade.

Nada disso me incomoda em si. O risco aparece quando a adaptação vira a identidade da escola e a arte passa a ser um produto como outro qualquer. A faixa começa a ser vendida a cada três meses, o treino é amaciado pra ninguém desistir, e a parte difícil, que é justamente a que transforma quem treina, some primeiro. É assim que nasce o que o pessoal do meio chama de McDojo, a escola de arte marcial em formato de fast-food. E o caso do taekwondo coreano mostra o outro lado da mesma moeda: uma arte que apostou quase tudo na infância fica exposta no dia em que as crianças começam a faltar.

O que mantém uma tradição viva

Nascido em Okinawa e levado ao resto do Japão no começo do século 20, o Karatê hoje é praticado no mundo inteiro.

E aqui eu chego ao ponto que os gráficos não conseguem medir.

Durante quase toda a sua história, as artes marciais japonesas foram passadas de professor pra aluno em grupos pequenos. Sokaku Takeda, o mestre do Daito-ryu (o jujutsu de combate de onde o Aikido nasceu), ensinava de cidade em cidade, e foi num desses encontros, num alojamento no norte do Japão, em 1915, que ele conheceu o jovem Morihei Ueshiba, que mais tarde fundaria o Aikido. Uma tradição sobrevive porque alguém aprendeu direito e passou adiante direito. Multidão nunca foi o critério.

Por isso eu desconfio de quem mede a saúde de uma arte pelo número de buscas no Google ou pelo número de medalhas. O que eu olho é se o que chega no aluno continua inteiro: a técnica que funciona sob pressão, a história contada com fonte, a filosofia praticada no corpo e não só recitada. E olho também para aquilo que uma arte tradicional oferece e o mercado de fitness não consegue copiar. Uma prática que dá pra levar por décadas, que não depende de você estar no auge físico e que, por isso, continua fazendo sentido pra vida toda. Uma estrutura de convivência em que o senpai, o aluno mais antigo, ajuda o kohai, o mais novo, e onde você é conhecido pelo nome e não pelo número da sua matrícula. Em tempos de academia impessoal e treino pelo aplicativo, isso vale muito.

Isso vale para o karatê, para o kendo, para o judô e para o Aikido. O próprio Gold, ao fechar o relatório de 2020, não pediu que o Aikido virasse outra coisa pra sobreviver. Pediu que a qualidade do treino fosse preservada e que a arte encontrasse um jeito de falar com a nova geração. Yamashita, do outro lado, está tentando devolver ao judô infantil a ideia de formação humana que Jigoro Kano colocou no centro da arte. São caminhos diferentes para a mesma conclusão. Ninguém precisa encher um ginásio pra manter uma tradição viva. Precisa de um professor honesto, de alunos comprometidos e de um lugar onde o treino aconteça toda semana, sem pressa.

No fim, a pergunta que importa pra você talvez seja outra. O futuro do karatê, do kendo, do taekwondo ou do Aikido vai ser decidido por quem resolver pisar num tatame nos próximos anos, e praticar uma arte marcial, seja ela qual for, faz bem pra qualquer pessoa, em qualquer idade. Então eu devolvo a pergunta: se você já pensou em treinar alguma coisa e deixou pra depois, o que está te segurando?


Nota: este texto é informativo. Os números vêm de fontes diferentes e medem coisas diferentes: registros de federação no judô japonês, clubes escolares no kendo, fechamento de dojangs no taekwondo coreano e interesse de busca on-line no Aikido, que não equivale à quantidade de praticantes. A pesquisa demográfica do Aikido Journal reflete o perfil dos leitores da revista. A leitura sobre o que mantém uma tradição viva é minha, de quem ensina a arte.


Referências

  • AFP, "Japan judo hits crisis point as bullied, burnt-out children quit", reproduzido pelo Oman Observer, 25 de junho de 2022. (Praticantes registrados na Federação Japonesa de Judô caindo quase pela metade desde 2004, para cerca de 120 mil; queda maior entre crianças; declarações de Yasuhiro Yamashita; cancelamento do campeonato nacional para crianças de 10 a 12 anos.)

  • George (editor), "Free fall", kenshi247.net, 19 de maio de 2023, com dados da revista Kendo Jidai, edição de junho de 2023. (Registros de kendo nos clubes escolares de ginásio no Japão, 2017 a 2022; causas como natalidade, celular e a reforma dos clubes escolares de 2023.)

  • Herald Business, As Taekwondo studios close one after another”… Park Tae-joon Kim shines amidst low birth rate crisis [Paris 2024], via Daum, 8 de agosto de 2024. (244 dojangs de taekwondo fechados em 2023 contra 3 em 2013, segundo o Ministério do Interior e Segurança da Coreia; cerca de 90% dos alunos em idade de ensino fundamental.)

  • Presenting Survival Strategies for Taekwondo Dojangs in the Era of Low Birth Rates, Economist (이코노미스트, Coreia), 2 de abril de 2026. (Livro sobre a sobrevivência dos dojangs de taekwondo diante da queda da natalidade.)

  • NBC Sports, "Olympic sports dropped from the 2024 Paris Games", 9 de julho de 2024. (Karatê fora de Paris 2024 após a estreia em Tóquio.)

  • Josh Gold, "Aikido: Confronting a Crisis", Aikido Journal, 7 de dezembro de 2017. (Queda de 86% no interesse de busca entre 2004 e 2017, ritmo de -9,3% ao ano em cinco anos; jiu-jitsu brasileiro passando o Aikido em 2010 e com mais de 25 vezes o interesse no Instagram; a ressalva de que busca não equivale a número de praticantes.)

  • Josh Gold, "Aikido Demographics: A Special Report", Aikido Journal, 11 de dezembro de 2020. (Pesquisa de 2019 com 2.214 respondentes; 4,8% dos praticantes nos EUA com menos de 30 anos, 81% acima dos 40; queda de 93% no interesse de busca desde 2004; a "pirâmide invertida".)

  • Stanley Pranin, "Martial arts in a state of decline?", Aikido Journal, 1º de dezembro de 2006. (Relatos de professores sobre turmas encolhendo e dojos fechando; concorrência, perda de raiz, esportivização, com judô e kendo como exemplos, e fragilidade financeira como causas.)

  • Németh Ferenc, "The twilight of aikido? The reasons for its declining popularity", Yurusu Aikido, 16 de maio de 2025. (Envelhecimento da comunidade; efeito da pandemia sobre os alunos mais velhos; dúvidas sobre eficácia na era do MMA.)

  • MyStudio, "Economic trends in martial arts", atualizado em março de 2025. (Estratégias de adaptação das escolas: programas híbridos e online, aulas infantis como maior segmento de matrículas nos EUA, contraturno, treinamento para empresas, automação de gestão. Fonte comercial, de uma empresa de software para academias.)

  • Morihei Ueshiba, verbete da Wikipédia (encontro com Sokaku Takeda em 1915, em Engaru, Hokkaido).

Mark Araujo

Mark Araujo é Diretor de Arte, Designer Gráfico e especialista em liderança, atuando na intersecção entre o design moderno e a sabedoria das artes marciais. Ao longo de uma carreira de 25 anos, desenvolveu sistemas visuais para marcas globais em São Paulo, Espanha e Austrália, enquanto aprofundava sua prática no tatame.

Mark treinou Aikido por cerca de 9 anos com Reishin Kawai Shihan (8º Dan Aikikai), o mestre responsável por introduzir a arte no Brasil, e, mais tarde, expandiu sua jornada pelas linhagens Iwama e Tomiki na Austrália. Influenciado por seus estudos de Zen e meditação com a Monja Coen, Mark leva os princípios de segurança psicológica, alinhamento cultural e presença focada para equipes criativas e líderes que enfrentam ambientes de alta pressão.

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