Zen em movimento: a meditação que acontece no tatame

No aikido, a atenção é cobrada no instante do contato. Tanto quem conduz como quem cai precisam estar inteiros no mesmo movimento.

Quase todo mundo já tentou meditar pelo menos uma vez. A pessoa senta no chão ou numa cadeira, fecha os olhos, tenta prestar atenção na respiração e, em menos de um minuto, a cabeça já está no trânsito da volta pra casa, na mensagem que ficou sem resposta, na conta que vence amanhã. Ela tenta de novo, a cabeça foge de novo, e no fim chega a uma conclusão que eu escuto com frequência: meditação não é pra mim.

Eu entendo essa conclusão, mas acho que ela parte de uma ideia estreita do que é meditar. E digo isso a partir do meu próprio caminho, que foi o contrário do que muita gente imagina. Hoje o Tenko treina dentro do Zendo Brasil, o centro de meditação da Monja Coen, aqui em Perdizes, e quem sabe disso costuma supor que eu cheguei ao aikido pelo zen. Aconteceu o inverso. Eu treinei aikido durante anos antes de sentar pra meditar de verdade, e quando finalmente sentei, a meditação só confirmou o que o corpo já vinha me ensinando no tatame: a quietude que a gente procura sentado também acontece em movimento.

Pra explicar como, vale começar pelo que a meditação está procurando.

O que a meditação procura

No zen, a prática central se chama zazen, que quer dizer, literalmente, meditação sentada. Você senta com a coluna ereta e os olhos semiabertos e simplesmente fica ali, deixando os pensamentos aparecerem e passarem sem ir atrás deles e sem brigar com eles. Ninguém está tentando esvaziar a cabeça à força. O que se cultiva é a capacidade de ficar inteiro no momento presente, em vez de viver no que já passou ou no que ainda vai acontecer.

Acontece que o próprio zen sabe que essa presença não depende da posição sentada. Nos mosteiros e centros zen, entre um período de zazen e outro, os praticantes se levantam e fazem o kinhin, uma meditação andando, em passos lentos e no ritmo da respiração. A atenção continua a mesma, só que agora o corpo se move. Ou seja, dentro da tradição que a gente mais associa ao "ficar parado", a meditação também anda.

E se ela pode andar devagar numa sala silenciosa, a pergunta seguinte é natural: o que acontece com a meditação quando o movimento é rápido e vem de outra pessoa?

Zazen: o corpo parado e a atenção voltando à respiração toda vez que a mente foge.

Quando alguém vem na sua direção

No aikido, o treino é feito em dupla. Um parceiro ataca, com um golpe ou uma pegada de verdade, e o outro recebe esse ataque, acompanha a força dele e a conduz até uma projeção (quando o parceiro é levado ao chão de forma controlada) ou uma imobilização. Depois os papéis se invertem. O aikido é uma arte marcial, e o ataque precisa ser honesto pra que o treino tenha sentido.

É aí que a meditação aparece sem pedir licença. Quando o parceiro avança, não sobra espaço pra pensar em mais nada. Se a minha cabeça for pro trânsito ou pra conta que vence amanhã, eu perco o tempo do movimento: entro cedo demais ou tarde demais, e a técnica simplesmente não acontece. O parceiro sente na hora, e eu também. O tatame devolve a distração em forma de resultado, no mesmo segundo.


"O tatame devolve a distração em forma de resultado, no mesmo segundo."

Pra muita gente, essa diferença abre uma porta. Sentado, quando a mente foge, ninguém percebe além de você, e às vezes nem você percebe por um bom tempo. No treino, a distração tem consequência imediata, e por isso o próprio exercício te puxa de volta pro presente toda vez que você sai dele. O treino me obriga a estar ali, inteiro e agora. Isso é atenção plena, só que de pé.

Vale um aviso honesto pra quem nunca treinou. Nas primeiras aulas, a cabeça fica ocupada com outra coisa: qual pé vai na frente, pra que lado girar, onde pôr a mão. Isso também é pensamento, e é normal. A presença de que estou falando cresce à medida que o corpo aprende o movimento e deixa de precisar de instrução a cada passo, então ela vem com o tempo de treino.

A respiração faz a ponte

Se existe uma coisa que liga o zazen ao tatame, é a respiração. No zen, ela funciona como âncora: quando a mente foge, é pra respiração que a atenção volta. No aikido, a gente usa a palavra kokyu, que em japonês quer dizer respiração, mas que no treino ganha um sentido mais amplo, o de coordenar a respiração com o movimento do corpo inteiro. Tanto que existem técnicas que levam esse nome, como o kokyu-ho e o kokyu-nage.

Na prática, funciona de um jeito bem simples. Você solta o ar no momento do esforço, quando conduz ou projeta o parceiro, e aos poucos entra no ritmo do movimento. A respiração deixa de ser algo que você controla com esforço e passa a acompanhar o que o corpo está fazendo. Nesse ritmo, o corpo desacelera a mente sem você precisar mandar.

Pra quem acha que não consegue meditar sentado, isso faz muita diferença, porque a atenção ganha onde se apoiar: no parceiro que vem e na respiração que acompanha o movimento.

Zen em movimento? Quase

Por tudo isso, é comum ouvir que o aikido é "zen em movimento". Eu gosto da imagem, e ela ajuda a explicar o que acontece no tatame. Mas preciso ser honesto sobre ela, porque é quase verdade, e o quase importa.

Onisaburo Deguchi, o carismático líder espiritual do movimento neo-xintoísta Omoto-kyo, forneceu a filosofia espiritual central e a estrutura ética que transformaram as artes marciais de Morihei Ueshiba no aikido moderno.

A raiz espiritual de Morihei Ueshiba, o fundador do aikido, veio de outro lugar. Em 1919, ele conheceu Onisaburo Deguchi, líder da Omoto-kyo, um movimento religioso de raiz xintoísta, e pouco depois se mudou com a família pra Ayabe, onde ficava a sede do grupo, pra estudar com ele. O xintoísmo é a religião nativa do Japão, centrada nos kami, as divindades ligadas à natureza e aos ancestrais, e a Omoto era uma vertente mística e pouco ortodoxa dele. Foi daí que vieram as práticas espirituais que marcaram o Ueshiba pelo resto da vida, como o misogi, os rituais de purificação com água, que ele chegou a fazer sob a cachoeira de Nachi.

O zen tem outra origem. É uma escola do budismo que chegou ao Japão vinda da China e criou raízes fundas na cultura japonesa, inclusive entre os samurais, que é o assunto do próximo episódio. Então, falando com rigor, o aikido não descende do zen.

Isso não desfaz a imagem, só coloca cada coisa no seu lugar. aikido e zen são parentes próximos. Os dois cultivam a presença no momento, dão à respiração um papel central e pedem que o praticante solte o ego, aquela necessidade de vencer e de se afirmar o tempo todo. Mas um não é a versão do outro, e tratar os dois como a mesma coisa apaga uma história que merece ser contada direito. O que eles têm em comum, e é isso que me interessa nesta série, é aprender a ficar presente no meio do que se move.

Talvez você só não tenha achado a sua porta

Quando alguém me diz que não nasceu pra meditar, eu desconfio da conclusão. Na maioria das vezes, a pessoa tentou uma porta só, a do silêncio parado, e concluiu que a casa inteira estava fechada pra ela. Pra algumas pessoas, essa porta funciona desde o primeiro dia. Pra outras, o caminho passa pelo corpo, pelo contato e pelo movimento, e só depois, se for o caso, chega à almofada. Comigo foi assim, e a minha porta foi o corpo.

Este é o primeiro episódio da série Fudoshin, palavra japonesa para a mente que não se abala, sobre zen e aikido. Nos próximos, a gente vai olhar a relação antiga entre o zen e os samurais, a virada que o Ueshiba deu nessa herança e os estados mentais que o treino cultiva.

E fica a pergunta: você é mais de meditar parado ou em movimento? Me conta nos comentários.


Pra ler mais

Zen in the Martial Arts, de Joe Hyams. O autor, um jornalista americano que treinou com mestres como Bruce Lee, reúne histórias curtas sobre o que o treino marcial ensina fora do tatame. É uma porta de entrada leve e acessível pra quem quer começar a ler sobre o tema (edição em inglês).


Referências

  • Aikido Journal, "Morihei Ueshiba and Onisaburo Deguchi" (2002). O encontro de Ueshiba com Onisaburo Deguchi em 1919 e a mudança para Ayabe.

  • Morihei Ueshiba, verbete da Wikipédia (entrada na Omoto-kyo em 1919, descrita como seita xintoísta; prática de misogi na cachoeira de Nachi).

  • Austin Zen Center, "Kinhin" (a meditação andando entre períodos de zazen).

  • Joe Hyams, Zen in the Martial Arts. Bantam / Penguin Random House.

Mark Araujo

Mark Araujo é Diretor de Arte, Designer Gráfico e especialista em liderança, atuando na intersecção entre o design moderno e a sabedoria das artes marciais. Ao longo de uma carreira de 25 anos, desenvolveu sistemas visuais para marcas globais em São Paulo, Espanha e Austrália, enquanto aprofundava sua prática no tatame.

Mark treinou Aikido por cerca de 9 anos com Reishin Kawai Shihan (8º Dan Aikikai), o mestre responsável por introduzir a arte no Brasil, e, mais tarde, expandiu sua jornada pelas linhagens Iwama e Tomiki na Austrália. Influenciado por seus estudos de Zen e meditação com a Monja Coen, Mark leva os princípios de segurança psicológica, alinhamento cultural e presença focada para equipes criativas e líderes que enfrentam ambientes de alta pressão.

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