Uma fascinação de infância, um monge que escreveu pra um mestre de espada, e o que sobra da imagem do "guerreiro zen" quando a gente separa a história da lenda.
O grande Takashi Shimura, como Kambei Shimada, no filme Os Sete Samurais de Akira Kurosawa.
Eu tinha uns seis ou sete anos quando vi Os Sete Samurais, do Akira Kurosawa, pela primeira vez. Tem uma cena nele que resume bem o que me prendeu. Um bandido foge e se tranca num celeiro com uma criança como refém. Os camponeses gritam do lado de fora, ninguém sabe o que fazer, e qualquer movimento brusco pode custar a vida do menino. É aí que aparece Kambei, um samurai já de cabelo grisalho, sem senhor e sem dinheiro. Ele não puxa a espada nem ameaça ninguém. Pede que raspem a cabeça dele, veste a roupa de um monge e caminha devagar até o celeiro, carregando dois bolinhos de arroz, como quem vem oferecer comida. A porta se abre, ele entra, e segundos depois o bandido cambaleia pra fora e cai morto. A criança está salva.
Eu não entendi direito o que tinha visto, só sabia que aquele homem era diferente de todos os heróis que eu conhecia. Ele não gritava, não se exibia e parecia calmo justamente no momento em que todo mundo em volta estava desesperado. Fiquei fascinado, e essa fascinação nunca foi embora.
Muitos anos depois, quando fui atrás da história real, descobri que aquela mistura de monge e guerreiro tinha base de verdade. Também descobri que boa parte do que eu imaginava sobre o samurai era lenda, inclusive coisas que pareciam óbvias. Este texto é sobre as duas coisas.
Por que um guerreiro ia querer sentar quieto
A primeira pergunta que essa história levanta é simples: o que um guerreiro tinha a ganhar com o zen, uma escola do budismo, religião que tem no não matar um de seus preceitos centrais?
A resposta mais honesta começa pelo corpo, antes de qualquer filosofia. Quem já ficou paralisado diante de uma situação de estresse ou assustadora sabe que o medo não só incomoda, ele trava. As mãos esfriam, o coração bate mais rápido, o raciocínio some, e a gente fica parado justamente quando mais precisava agir. Pra quem vivia de combate, travar na hora errada custava a vida.
O zen chegou ao Japão vindo da China num momento em que o país passava a ser governado por guerreiros, e esses guerreiros começaram a patrocinar mosteiros e a trazer mestres chineses. O caso mais conhecido é o de Hojo Tokimune, o líder militar que governava o Japão quando os mongóis tentaram invadir o país, no fim do século 13. O império mongol era o maior do mundo naquele momento, e já tinha tentado invadir o Japão uma vez. Tokimune sabia que eles voltariam, e se preparou do jeito que um general se prepara: organizou tropas e mandou erguer muralhas de pedra ao longo da costa.
Tradição e arte ukiyo-e por Utagawa Hiroshige. Nesta obra de cerca 1843/47, o mestre japonês ilustra Hojo Tokimune e Soga no Juro Sukenari celebrando a maioridade de Goro.
Ele também trouxe da China um monge chamado Mugaku Sogen, que virou seu mestre, e a tradição zen guarda uma cena dos dois. Com tudo pronto do lado de fora, Tokimune confessou que ainda se sentia despreparado por dentro. Sogen não deu a ele nenhuma técnica nova. Mandou que ele sentasse em meditação e procurasse de onde vinha aquele medo. Conta-se que, depois de um tempo, Tokimune soltou um grito, e o mestre aprovou, dizendo que o tormento dele vinha da própria mente e que ele não devia pensar demais.
Não dá pra saber se foi assim mesmo, e eu trato a cena como história de mosteiro, com a moral já embutida. Mas tem um fato documentado ao redor dela que eu acho bonito. Depois da guerra, Tokimune mandou construir um templo em Kamakura, o Engaku-ji, em memória dos mortos dos dois lados, japoneses e invasores, e entregou o templo ao seu mestre.
O que esses guerreiros iam buscar no zen, então, era uma prática: o zazen, a meditação sentada, em que você observa a própria mente sem fugir do que aparece nela, inclusive do medo. Faltava entender o que essa prática fazia, na hora H, para quem vivia pela espada. A melhor explicação que encontrei está numa carta.
A mente que para na espada
No século 17, o monge zen Takuan Soho escreveu uma longa carta a Yagyu Munenori, um dos maiores mestres de espada do Japão e professor dos próprios xoguns. É provavelmente o documento mais direto que existe ligando o zen à espada, e o argumento dele é simples de dizer e difícil de viver.
Quando a espada do adversário vem na sua direção e a sua mente para nela, você perde. Takuan usa exatamente esse verbo, parar. A mente que gruda na lâmina, na própria técnica ou no medo de errar deixa de acompanhar todo o resto, e o corpo vai junto. Pra explicar, ele usa a imagem de uma árvore: se você fixa o olhar numa única folha vermelha, deixa de ver todas as outras, mas se olha pra árvore sem prender o olhar em nada, enxerga as folhas todas de uma vez.
Gravura original japonesa em xilogravura de Yoshitoshi (1839 - 1892) Kurikara Kengoro e Fudo Myoo, 1867 Série: Heróis Bonitos e Valentes do Suikoden, 1866 - 1867
E aqui a palavra que dá nome a esta série ganha um sentido que vai mais fundo. Fudoshin quer dizer mente que não se abala, ou mente imóvel, e Takuan usa esse mesmo "imóvel" na carta. Ele lembra até de Fudo Myoo, uma divindade budista que aparece nos templos japoneses com uma espada numa mão e uma corda na outra, de cara fechada e pé firme, e diz que ela representa justamente a mente que não se move. Só que ele avisa que imóvel não tem nada a ver com rígido, como uma pedra. A mente imóvel é a que não fica presa em lugar nenhum, e por isso consegue responder a qualquer coisa. É a capacidade de manter o equilíbrio emocional e a serenidade diante de situações agradáveis, desagradáveis ou neutras, ou equanimidade.
É difícil ler isso e não pensar em outro personagem de Os Sete Samurais, o Kyuzo, o melhor espadachim do grupo. Na primeira vez que ele aparece no filme, está num duelo de treino com varas contra um samurai arrogante. Os dois se movem quase nada, se estudam por um bom tempo, e de repente acontece um único golpe. O outro não aceita a derrota e exige um duelo com espadas de verdade. Kyuzo tenta evitar, acaba aceitando, e a cena se repete do mesmo jeito, só que agora o outro não se levanta. Kyuzo não tem pressa nem raiva. Parece que nada ali consegue prender a atenção dele.
No tatame eu vejo a mesma coisa toda semana, claro que em escala bem menor. Quando o parceiro segura o meu pulso e a minha atenção fica presa na mão dele, eu travo junto com ela. Quando a atenção continua aberta pra pessoa inteira, o movimento acontece. A firmeza vem justamente de não se agarrar a nada.
Ensaiar a própria morte
Só que, até aqui, a gente falou do medo de perder um combate. Existe outra imagem do samurai, mais sombria, que aparece em quase todo texto sobre o tema: a de que ele ensaiava a própria morte.
Ela vem de manuais antigos. Num deles, escrito por Daidoji Yuzan, um estudioso de estratégia militar, a primeira instrução é que o samurai mantenha em mente, dia e noite, desde a manhã do Ano-Novo, até a última noite de dezembro, o fato de que vai morrer. O mais famoso desses textos, o Hagakure, vai além. Recomenda que, todos os dias, com o corpo e a mente em paz, a pessoa se imagine atingida por flechas, lanças e espadas, e se considere, a cada manhã, já morta.
Soa mórbido, e é um pouco. Mas o raciocínio por trás faz sentido. Aquilo que a gente encara de frente, de forma repetida, vai perdendo o poder de paralisar, enquanto aquilo que a gente evita tende a crescer na cabeça. Quem já adiou por semanas uma conversa difícil conhece bem a segunda parte.
O que eu não sabia, e que muda a leitura inteira, é quem escreveu isso. Yamamoto Tsunetomo, o homem por trás do Hagakure, nasceu quando o Japão já vivia em paz havia décadas, nunca lutou numa batalha e trabalhava como escriba. O país atravessou mais de dois séculos sem grandes guerras internas, e o samurai foi virando um funcionário da administração que andava armado. Os textos mais intensos sobre encarar a morte vieram, em boa parte, de homens que nunca viram um campo de batalha e que sentiam saudade de um ideal guerreiro que já tinha passado.
Guerreiros em transição: Samurais do Clã Satsuma (1863). Note a combinação das tradicionais espadas (katanas) com um livro ocidental carregado por um dos samurais em pé, simbolizando a abertura do Japão ao Ocidente. Registro histórico de Felice Beato (getty.edu)
Como a lenda cresceu
E a lenda cresceu bem depois, já no Japão moderno. O Hagakure passou uns dois séculos esquecido até ganhar uma edição moderna, em 1900. No mesmo ano, o educador japonês Inazo Nitobe publicou em inglês, pra explicar o Japão aos ocidentais, o livro Bushido: a alma do Japão, que apresentava o bushido, o "caminho do guerreiro", como um código de honra antigo e contínuo, parecido com a cavalaria europeia. O historiador Oleg Benesch, da Universidade de York, mostra no livro Inventing the Way of the Samurai que esse código unificado é em grande parte uma construção daquele período.
A parte triste veio em seguida. Na Segunda Guerra, o governo japonês usou essa imagem, e o próprio Hagakure, pra convencer jovens soldados de que morrer era o destino natural de um guerreiro. Até o elo entre zen e guerra entrou nessa. Em Zen at War, de 1997, o pesquisador e sacerdote zen americano Brian Victoria mostrou como instituições e mestres zen apoiaram o militarismo japonês, e examinou o papel de D. T. Suzuki, o autor que mais popularizou a figura do "guerreiro zen" no Ocidente. O livro tem críticos, mas deixou claro que parte dessa imagem foi desenhada nesse contexto, com propósitos nada zen. Por isso eu prefiro falar desse tema com sobriedade, sem o glamour do guerreiro que despreza a vida.
E o Kambei, o samurai que me fascinou aos seis anos? Ele também é fruto de uma imagem. O Kurosawa fez Os Sete Samurais em 1954, quase quatro séculos depois da época em que o filme se passa, e o Kambei é um samurai imaginado por um grande artista, não um retrato de como os guerreiros de fato viviam. Isso não diminui o filme pra mim. Só me lembra que o samurai que eu carrego desde criança veio do cinema, e que o da história real é outro, mais complicado.
Do código samurai às missões suicidas. Pilotos da divisão 'Hagakure-Tai' em Chofu (novembro de 1944). O nome não era por acaso: o Hagakure, livro espiritual dos samurais, foi amplamente instrumentalizado pela propaganda militar japonesa na Segunda Guerra Mundial. A obra transformou-se na base ideológica perfeita para justificar as táticas de colisão voluntária e o desapego absoluto à vida em defesa do Império. (Colorizado por Mike Gepp)
O que fica de pé
Tirando a lenda, ainda sobra muita coisa. Guerreiros de fato buscaram o zen. Um monge de fato escreveu a um mestre de espada sobre a mente que trava diante da lâmina. E a ideia de encarar o que assusta, em vez de fugir dele, continua valendo.
O que me interessa nisso tudo é o que Takuan descreveu: treinar a mente pra não parar quando alguma coisa empurra você a reagir. Ninguém precisa de espada pra isso, uma conversa difícil já serve. Quando alguém levanta a voz numa reunião ou numa discussão em casa, a mente tende a grudar numa palavra, numa ofensa ou no próprio medo de perder, e a partir daí a gente responde a um pedaço da situação enquanto o resto passa despercebido. É a folha vermelha escondendo a árvore. O tatame é um bom lugar pra treinar isso, porque a pressão é real e o parceiro, ainda assim, está do seu lado.
Alerta de spoiler! Tem uma última cena do filme que conversa com tudo isso. No fim, depois da batalha, Kambei olha os túmulos dos companheiros mortos enquanto os camponeses cantam e plantam o arroz, e diz que, mais uma vez, eles perderam, porque quem venceu foram os camponeses. Aqueles samurais lutaram pra proteger quem não sabia se defender, e saíram dali sem nada.
Séculos depois, Morihei Ueshiba, o fundador do Aikido, levou essa ideia mais longe do que qualquer samurai. Herdou o treino da mente que não para e passou a usá-lo pra proteger até quem ataca. Tokimune, de certo modo, já tinha deixado uma pista nessa direção quando ergueu um templo pelos mortos dos dois lados. Essa virada é o assunto do próximo episódio.
Este é o segundo episódio da série Fudoshin, sobre zen e aikido. Esta jornada está apenas começando. Fique tunado para os próximos capítulos!
Pra ler mais
The Unfettered Mind, de Takuan Soho, com tradução de William Scott Wilson. Reúne três textos curtos do monge, entre eles a carta a Yagyu Munenori sobre a sabedoria imóvel. É a fonte mais direta sobre o encontro entre o zen e a espada, e se lê em poucas horas (edição em inglês).
Referências
Akira Kurosawa, Os Sete Samurais (Shichinin no Samurai), 1954.
Takuan Soho, The Unfettered Mind: Writings from a Zen Master to a Master Swordsman, tradução de William Scott Wilson. Kodansha / Shambhala. (A mente que para na espada do adversário; a sabedoria imóvel que não é "madeira ou pedra"; a imagem da árvore e da folha vermelha.)
Mugaku Sogen, verbete da Wikipédia (convite de Hojo Tokimune em 1279; a cena da meditação antes da invasão mongol, registrada pela tradição; fundação do Engaku-ji em 1282 em memória dos mortos dos dois lados).
Japanese Zen, verbete da Wikipédia (chegada do zen ao Japão e patrocínio do xogunato de Kamakura).
Daidoji Yuzan, Budoshoshinshu (*The Code of the Samurai*), tradução de A. L. Sadler; edição da Shambhala com tradução de Thomas Cleary. (A instrução de manter a morte em mente do Ano-Novo ao fim do ano.)
Yamamoto Tsunetomo, Hagakure, tradução de William Scott Wilson. Kodansha. (A meditação diária sobre a morte inevitável.) Verbete da Wikipédia com datas, a biografia de Tsunetomo e o uso do livro na Guerra do Pacífico.
Oleg Benesch, Inventing the Way of the Samurai: Nationalism, Internationalism, and Bushido in Modern Japan. Oxford University Press, 2014.
Inazo Nitobe, Bushido: The Soul of Japan, 1900.
D. T. Suzuki, Zen and Japanese Culture (versão ampliada de Zen Buddhism and Its Influence on Japanese Culture, 1938). Princeton University Press.
Brian Victoria, Zen at War. Weatherhill, 1997; 2ª edição Rowman & Littlefield, 2006. Sobre o autor, o livro e as críticas a ele.